O valor das mensalidades de cursos de ensino superior deve continuar em queda neste ano. É esperada uma redução de 4,3% na graduação presencial e de 1,8% no ensino a distância (considerando on-line e híbrido). Com isso, o setor acumula uma década de desaceleração. No acumulado de 2016 a 2026, o valor mediano das mensalidades desacelera 33% na graduação presencial e 55% nos cursos EAD, já corrigidos pela inflação (IPCA) do período, segundo dados da consultoria Hoper Educação. Em uma década, além da queda nas mensalidades, as faculdades viram a quantidade de alunos em cursos presenciais cair 45% chegando em 3,42 milhões neste ano. A principal causa foi a redução do Fies, programa de financiamento estudantil do governo federal que sustentou o setor até 2015. Essa perda foi compensada pelo EAD, cuja quantidade de matrículas mais do que triplicou na década. Neste ano, a projeção é de 5,1 milhões de estudantes, sendo 3,86 milhões em cursos on-line e 1,29 milhão no híbrido — modalidade regulamentada pelo Ministério da Educação (MEC), no ano passado. “O desafio agora é voltar a crescer. O setor está num momento de transição do novo marco regulatório do EAD, pressão na medicina, engenharias caindo, população endividada e uma eleição que deixa incerto quais os próximos passos que faculdades e alunos vão seguir”, disse Paulo Presse, consultor da Hoper. Diante desse cenário, o valor das mensalidades deve passar por momentos de alta e baixa nos próximos quatro anos. Sobre o volume, as projeções da consultoria mostram que pode haver crescimento de matrículas em cursos presencial e híbrido e ficar estável no on-line. A expectativa é que, em 2030, haja um total de 9,54 milhões de universitários nas faculdades particulares, um incremento de 1 milhão sobre a base de 2026. No entanto, o consultor ressalta que esses números podem sofrer mudanças diante de tantas variáveis por qual passa o setor neste momento, em especial, envolvendo o marco regulatório que está em fase de transição até 2027. Desde 2022, no setor privado, há mais alunos em cursos a distância. A estimativa é que o ano termine com 3,42 milhões de universitários no presencial e 5,1 milhões no EAD. As companhias listadas de educação apresentaram, no primeiro trimestre, aumento no tíquete médio — mas essa é uma métrica distinta da Hoper, que trabalha com mediana. Vários grupos educacionais intensificaram programas de parcelamento de mensalidade e concessão de Fies o que também eleva o valor médio das mensalidades. “Há também a questão do mix de cursos que impacta o tíquete médio. Os grandes grupos podem ter matriculado menos, mas tiveram mais alunos em cursos com mensalidades mais altas”, disse Vinicius Figueredo, analista do Itaú BBA. O BTG destacou em relatório que Cogna, Yduqs, Cruzeiro do Sul e Ânima apresentaram pressão sobre as margens com as adaptações para o marco regulatório que exige mais investimentos e gastos. Em 2026, o setor está enfrentando desafios tanto setoriais como macroeconômico. A medicina que era a “salvação da lavoura” com tíquete médio elevado, baixa inadimplência e alta relação candidato-vaga, agora enfrenta forte concorrência e todas essas vantagens começam a cair por terra com o aumento de vagas aprovadas por meio de liminares. Nesse cenário, o valor das mensalidades tem forte oscilação, indo de R$ 7,2 mil até R$ 15,7 mil. A mediana é de R$ 11,4 mil. Chama atenção que metade dos cursos pesquisados está na faixa inferior do cálculo, ou seja, entre R$ 10,4 mil a R$ 7, 2 mil. Nos cursos a distância, a mensalidade cai todos os anos, de forma sistemática. Hoje, o valor é de R$ 214 contra R$ 478 há dez anos. “Com a tecnologia e o maior número de alunos é esperado que o custo caia, mas esse ritmo já vem diminuindo”, explicou Presse. A dúvida, atualmente, é qual espaço ainda existe para essa desaceleração. O marco regulatório também limita a oferta de cursos on-line, um produto três vezes mais barato do que o presencial num momento de alto endividamento da população. Segundo o Banco Central, quase um terço da renda dos brasileiros está comprometida com dívidas. Um levantamento da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) com 3,2 mil alunos de instituições de ensino particulares e públicas de São Paulo, realizado entre janeiro e março, mostrou que 68,4% têm dívidas ativas, 41,7% atrasaram pagamentos nos últimos 12 meses, 37,2% têm duas ou mais dívidas simultâneas e 74,1% não possuem reserva emergencial. Segundo Presse, além do ambiente macroeconômico, as faculdades não conseguiram divulgar bem aos alunos as novas regras do EAD, no processo seletivo de verão, período mais relevante para o setor. “A demanda pelos cursos híbridos, no vestibular de verão, não veio como era esperado. Com isso, as instituições de ensino acabaram reduzindo o preço. A mediana ficou em R$ 312, o que representa uma queda de 14,3% sobre 2025”, disse o consultor. Pesquisa do Semesp, sindicato do setor, mostra que as faculdades ainda enfrentam dificuldades para implementar metodologias pedagógicas de cursos on-line e híbridos. Levantamento com faculdades, que juntas têm 2,66 milhões de estudantes, mostra que 40% já adotaram as ferramentas, mas em 21% dos casos as iniciativas ainda são parciais e em 13%, as práticas não estão estruturadas. “O estudo aponta que o prazo de transição previsto pelo MEC e os custos adicionais para estruturar equipes e novos modelos acadêmicos contribuem para essa lentidão”, disse Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp. Há um período de adaptação de dois anos, que vai até 2027. Neste período, os veteranos continuam estudando sob as regras antigas. Já os calouros são obrigados a se matricular dentro das novas determinações que exigem maior carga presencial de aulas. Segundo Figueiredo, do Itaú BBA, como há esse prazo de dois anos, as faculdades tendem a postergar as adaptações do marco regulatório. “O curso mais barato tem mais chances de rematrícula. Pelo novo formato, há maior presencialidade, o custo sobe e há mais chances de evasão. Então, para muitas instituições não faz sentido antecipar o custo, ainda mais nesse momento desafiador para o setor”, disse o analista do banco. conta_subtrair — Foto: Arte Valor