Pelo segundo ano consecutivo, universidades brasileiras que integram a lista de melhores do mundo no ranking do Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR) perderam posições no levantamento, que mede a qualidade do ensino superior. De acordo com dados divulgados na segunda-feira, 45 das 52 instituições do país tiveram piora no desempenho (87% do total), enquanto somente cinco melhoraram e outras duas ficaram estáveis. O presidente do CWUR, Nadim Mahassen, citou a queda no desempenho em pesquisa e a crescente competição global das universidades brasileiras com instituições mais bem financiadas como fatores que explicam o resultado. Em 2025, 46 das 53 universidades listadas já haviam caído no ranking. — O declínio das universidades brasileiras reflete anos de financiamento inadequado e a desvalorização da ciência e da educação como bens públicos — disse ao g1. O CWUR utiliza quatro indicadores principais para estabelecer o ranking anual: sucesso acadêmico de ex-alunos (25% da pontuação), qualificação do corpo docente (10%), desempenho em pesquisa (40%) e empregabilidade dos ex-alunos (25%). São avaliadas mais de 21 mil instituições e entram no ranking as 2 mil melhores. Ao todo, 44 universidades brasileiras tiveram queda especificamente no indicador de pesquisa. Esse aspecto leva em consideração o total de artigos publicados (10%); os veiculados em periódicos de primeira linha (10%); aqueles que estão em revistas altamente influentes (10%); e os que são mais citados por outros pesquisadores (10%). A Universidade de São Paulo (USP) segue na liderança entre as instituições brasileiras e da América Latina e Caribe, mas perdeu uma posição e ficou agora na 119° colocação, mesmo movimento registrado no ano passado. Ao GLOBO, a instituição destacou que ainda figura entre as 120 melhores do mundo e ressaltou que ocupa a 82ª posição no indicador de citações de artigos científicos. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), segunda instituição brasileira mais bem posicionada, por sua vez, perdeu 15 posições e ficou em 346° lugar. A Universidade de Campinas (Unicamp), que fecha o pódio nacional, teve uma queda de 10 posições na comparação com 2025 e agora aparece na 379° colocação. A Universidade Harvard lidera o ranking pelo 15º ano consecutivo, seguida pelo MIT e Stanford. Embora os EUA dominem o topo da lista, o destaque é a China, impulsionada por investimentos no ensino superior: 98% das universidades chinesas melhoraram suas posições. Recursos escassos Professora da FGV/Ebape, Tassia Cruz relaciona a queda geral das universidades brasileiras no ranking a baixos investimentos no setor na última década. Ela terminou recentemente um estudo sobre as despesas federais desde 2011, com correção da inflação, e concluiu que o orçamento de 2025 foi menor que o de 2015, em termos reais. Além disso, o ensino superior representava, em 2011, 37% do total dos recursos públicos para educação. No ano passado, essa porcentagem foi de 26%. — As despesas em educação no Brasil vêm crescendo, mas em ensino superior não. Nos últimos dois anos até teve um crescimento bem pequeno, mas ainda abaixo de 2015 — afirma Cruz. — Os recursos para educação básica aumentaram, o que é ótimo, mas, infelizmente, está fazendo com que a educação superior não tenha aumento real de orçamento por mais de 10 anos. Um dos resultados dessa estagnação de investimentos é o impacto sobre a área de pesquisa científica, normalmente a mais afetada em momentos de contingência financeira. — O baixo orçamento vai se refletir na capacidade da universidade em produzir pesquisa de ponta — alerta Cruz. Já o professor da UFBA Robert Verhine, especialista na avaliação da educação superior e pós-graduação brasileira, destaca que o foco do ranking está na “internacionalização”. A organização do CWUR leva em consideração o número de alunos e ex-alunos que receberam grandes distinções internacionais, como Prêmio Nobel. Outro indicador, pontua Verhine, é a qualidade do corpo docente, que também considera a premiação internacional de membros. O Brasil é afetado, afirma, por não dominar o inglês. O pesquisador afirma que “só através do inglês que se consegue citações internacionais das publicações e, apenas dominando o idioma que você vai ganhar prêmios internacionais”. — Se você está preocupado com problemas brasileiros, você vai publicar em português, não em inglês. Vai publicar em revistas locais, não revistas internacionais — afirma. — O Brasil está piorando no sentido comparativo. Outros países estão avançando, enquanto o Brasil está subindo com menos velocidade. Tem muitos países que investem fortemente nas suas melhores universidades para se destacar internacionalmente. Verhine pondera que enquanto China e Alemanha, por exemplo, têm grandes campanhas para promover apenas as melhores universidades e receber o prestígio de ocuparem a posição de melhores do mundo, o Brasil não possui um programa para levar as melhores ao topo. O país atua mais para “garantir qualidade mínima nas suas instituições do que promover uma qualidade máxima em poucas”, diz. Professor do Instituto de Física da Unicamp e especialista em Ensino Superior há 20 anos, Leandro Tessler diz que deve haver cautela ao analisar o ranking. O professor afirma que critérios como a influência social da universidade ou o papel da instituição na inclusão social deveriam ser considerados neste tipo de listagem. Ele avalia que a diferença de pontos no ranking pode ocorrer devido a flutuações, por exemplo, na empregabilidade, critério que considera “bastante discutível”. O indicador, segundo a CWUR, é a média ponderada de alunos com posições de destaque nas duas mil empresas mais valiosas do mundo. — Se você pegar os dados só do Brasil, a posição no ranking de empregabilidade da USP é 390º. Da UFRJ é 489°. Da Unicamp é 1557°, quer dizer, a Unicamp tá 1.000 posições abaixo da UFRJ em empregabilidade. Não ficou claro qual esse recorte de empregabilidade exatamente — critica. Melhoras no ranking Já as instituições brasileiras que ganharam posições foram a Universidade de Brasília (UnB), de 833° para 831°; a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), de 1294° para 1283°; a Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), de 1367° para 1347°; a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), de 1644° para 1629°; e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL), de 1946° para 1931°. Em nota, o Ministério da Educação (MEC) disse “acompanhar com atenção os diferentes levantamentos internacionais sobre educação superior”. A pasta afirmou que tem atuado no “fortalecimento da educação superior pública, com ações voltadas à ampliação do acesso e da permanência estudantil, ao incentivo à pesquisa e à pós-graduação e à modernização da infraestrutura acadêmica”. Também destacou que, desde 2023, o governo federal ampliou os investimentos nas universidades federais e criou 139 cursos em áreas estratégicas, e citou que anunciou R$ 400 milhões em novos investimentos. Leia a íntegra da nota do MEC: "O Ministério da Educação (MEC) acompanha com atenção os diferentes levantamentos internacionais sobre educação superior. Os rankings acadêmicos constituem referências importantes para o debate sobre o ensino superior e a pesquisa, embora adotem metodologias e indicadores próprios que contemplam dimensões específicas da atividade universitária. O MEC tem atuado no fortalecimento da educação superior pública, com ações voltadas à ampliação do acesso e da permanência estudantil, ao incentivo à pesquisa e à pós-graduação e à modernização da infraestrutura acadêmica. Desde 2023, o governo federal ampliou os investimentos nas universidades federais, criou 139 novos cursos em áreas estratégicas, como Engenharia e Tecnologia da Informação, e dobrou o número de bolsas permanência destinadas a estudantes indígenas e quilombolas. Além disso, neste ano, o MEC anunciou R$ 400 milhões em novos investimentos, por meio de quatro editais estratégicos para apoiar inovação, infraestrutura, permanência estudantil e a relação das universidades com a sociedade. Só com o INOVALab, o MEC está investindo R$ 150 milhões para remodelação e modernização de laboratórios acadêmicos de universidades federais de todo o país. A expectativa é que esse conjunto de iniciativas contribua para o fortalecimento contínuo das universidades brasileiras e se reflita positivamente nos diversos indicadores nacionais e internacionais." (* Estagiário sob supervisão de Marlen Couto, com informações do g1)
Baixo investimento e barreiras à internacionalização explicariam queda de universidades brasileiras em ranking mundial
45 das 52 instituições do país tiveram piora no desempenho (87% do total), enquanto somente cinco melhoraram e outras duas ficaram estáveis












