As duas maiores facções criminosas do país, consideradas agora organizações terroristas pelos EUA, são focadas em fazer dinheiro. Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho (CV), do Rio, têm avançado sobre negócios da economia real, mas com estilos diferentes, apontam investigadores e vítimas. A primeira motivação para a incursão desses grupos em negócios é a necessidade de lavar dinheiro do tráfico de drogas, no entanto, eles essas atividades viraram novas fontes de recursos com a prática de outros crimes, como roubo de equipamentos, contrabando, falsificação e adulteração de produtos ou monopólio forçado de serviços. O PCC tem uma lógica mais empresarial, com foco nos fluxos logísticos e alta especialização — o que dificulta inclusive a identificação de seus integrantes. Já o CV replica o modelo de domínio territorial em sua expansão pelo país e que também é seguido no Rio por outras facções criminosas e por milícias, grupos paramilitares formados originalmente por agentes públicos da área de segurança. De toda forma, o resultado para pessoas e empresas idôneas, que investem em atividades produtivas e geram empregos, é o mesmo: prejuízo e medo. Roubo especializado Um dos alvos dos criminosos é o setor de energia solar. Um executivo do setor, que preferiu não se identificar por questões de segurança, revela que a empresa em que trabalha registrou prejuízos da ordem de R$ 1,2 milhão só neste ano. Executivo de geradora de energia solar, que não se identifica por questões de segurança, conta como negócio sofre com roubos especializados em SP — Foto: Edilson Dantas A companhia tem usinas solares em vários estados, mas, apesar do alto índice de insolação e geografia plana da Região Metropolitana do Rio, desistiu de investir no estado por um componente típico do ecossistema fluminense: as milícias já conhecidas por extorquir usinas de energia solar. A empresa, no entanto, tem sofrido com o crime no interior de São Paulo, mas ali o problema é outro: as quadrilhas especializadas no roubo de cabos de cobre para a venda no mercado ilegal. O cobre é bastante visado em razão do alto valor comercial, da facilidade de revenda e da crescente escassez do minério na natureza. Os criminosos invadem usinas e estragam as estruturas para levar os cabos, e provocam dois tipos de prejuízo: o dano material aos equipamentos das fazendas solares e a energia frustrada, ou seja, que deixa de ser gerada. A ação é especializada: os criminosos cortam cabos para identificar se são de cobre ou alumínio. Mesmo quando encontram só alumínio, o dano já está feito, uma vez que não é possível remendar os cabos para manter o funcionamento dos painéis. — É uma ação muito rápida. As usinas ficam em áreas remotas, não dá tempo de a polícia chegar. O problema maior não é nem o cabo, é a energia frustrada, o que eu perco de receita — explica o executivo. Mudança de estratégia A escalada dos furtos forçou a empresa a repensar suas estratégias e aumentar os gastos com segurança, para além de vigilantes locais e câmeras de monitoramento. Passou a investir em tecnologias mais sofisticadas, como câmeras térmicas com visão noturna, guaritas elevadas e sistemas de pronta resposta com equipes especializadas que podem chegar às usinas em até 30 minutos após um alarme de invasão. Em locais consideradas de alto risco, a decisão foi retirar os vigias presentes para priorizar a segurança humana em detrimento da patrimonial. No Rio, um empresário que também teme se identificar, já conta dez dos seus 30 anos no setor de telecomunicações com a variável do crime organizado pesando em suas decisões à frente de uma distribuidora de internet via cabo. Com atuação em áreas da capital e do Grande Rio, ele teve de deixar alguns bairros da região, por causa da atuação crescente de grupos criminosos nessa atividade, que barra a expansão de operadoras legais. Empresário que não se identifica por questões de segurança conta como sua operadora de internet é limitada pelo crime — Foto: Guito Moreto Desafiar ameaças pode significar colocar seus cerca de 500 funcionários em risco, ele diz. Equipes frequentemente são abordadas em atendimentos e instalações e passaram a evitar certas regiões, limitando o crescimento da empresa. — Alguns dos meus funcionários foram diagnosticados com estresse pós-traumático após investidas de criminosos. Tem técnico que prefere virar motorista de aplicativo a continuar atuando nessas áreas, gente capacitada que abandonou a profissão porque não aguentou mais a pressão. Estado é inócuo O empresário diz que registra as intimidações em boletins policiais, mas como proteção contra queixas de consumidores por interrupções no serviço provocadas por crimes como corte e roubo de cabos. Não vê ação eficaz do Estado para proteger sua atividade. — Se houver falha na prestação do serviço e não tivermos registrado o problema, o consumidor pode nos processar e acabamos perdendo dos dois lados — diz. — Muitas vezes, quando procuramos assistência (de autoridades), ouvimos as mesmas justificativas: falta efetivo, ocorrências mais graves para atender. Não tem por que a polícia se meter nas questões de uma empresa privada. Entendo que a prioridade da polícia é proteger vidas, mas, na prática, significa que ninguém consegue proteger uma infraestrutura espalhada por postes e ruas inteiras. Para o empresário, o problema ultrapassa seu ramo e afeta diretamente o desenvolvimento econômico de várias regiões do Rio tomadas por essa lógica de ocupação territorial do crime. No seu caso, lamenta não conseguir ampliar a escala de seu serviço, mesmo diante de consumidores dispostos a pagar por ele. Enquanto bairros considerados seguros no Grande Rio podem ter mais de dez operadoras de internet disputando clientes, ele diz, há regiões inteiras onde a população fica restrita a um ou dois provedores autorizados por criminosos. Se houvesse segurança para atender a demanda reprimida nessas áreas, ele acredita que sua base atual de assinantes poderia ser 30% maior, e a empresa poderia ser hoje três vezes maior. — Há milhares de casas que poderiam ser atendidas. A demanda existe, mas não conseguimos crescer. A operação ficou estagnada porque não há espaço para expandir em muitas regiões do estado — diz o empresário. — Olhamos para áreas superpopulosas, que seriam o sonho de qualquer empresa do meu setor para investir, e vemos lugares onde não conseguimos atuar porque somos ameaçados ou expulsos. Isso impede a concorrência, reduz a oferta para o consumidor e dificulta a geração de empregos. Segundo ele, a situação piorou na pandemia, em 2020: — Antes eles queriam apenas uma participação (de mercados locais). Depois passaram a querer controlar completamente a atividade, criando provedores ligados a pessoas de confiança e impedindo a atuação de independentes.
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