: Sobre a arte de flanar sem aplicativo e o que se perde quando eliminamos o erro e a emoção de viajar RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 18:14 Exploração Urbana: Redescobrindo o Caminhar Sem Tecnologia O artigo discute a arte de flanar sem aplicativos, enfatizando o valor de se perder e explorar novos caminhos espontaneamente. A autora relata sua experiência ao preferir mapas físicos a GPS, destacando a emoção e o aprendizado que surgem ao caminhar sem rumo definido. Ela critica a dependência tecnológica que elimina erros e a emoção de viajar, argumentando que a exploração intuitiva enriquece a experiência de viagem. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Chego no hotel, pela manhã, com a cara amassada de quem passou a madrugada insone dentro de um avião, mas nem cogito descansar, só quero trocar de roupa, escovar os dentes e sair para explorar o entorno. O concierge escaneia meu passaporte e, ao devolvê-lo, entrega junto um cartão magnético e a senha do wi-fi. É agora, Martha: ãhn, have you got a map, please? Ele me lança um sorriso condescendente, calcula que tenho a idade da mãe dele e puxa um folheto dobrado em oito partes. Abre-o sobre o balcão, tira uma caneta do bolso e assinala com um x: estamos aqui. Obrigada, moço. Sei usar o Waze, mas... A senhora não é a única, está tudo bem. E lá vou eu, humilhada, em direção ao elevador, arrastando a mala de rodinhas enquanto, na outra mão, seguro o mapa e a chave que não é chave. Meia-hora depois, sairei do elevador e atravessarei o saguão com o mapa mal dobrado dentro da mochila e já todo rabiscado. Não que eu seja refém de mapas. Caminhar ao léu é sempre uma aventura excitante, poética, epifânica. Todo viajante que já circulou por Veneza, por exemplo, sabe: a gente vira para um lado e dá de cara com um Palazzo, vira para outro e vê um violinista tocando em um balcão, vira de novo e encontra uma exposição de Da Vinci dentro de uma igreja: um mosaico de espantos gloriosos. Mas o oposto também me agrada. Estudar o traçado dos bairros, suas artérias, as distâncias presumidas, o que fica perto do quê. É como se eu estivesse vendo a Terra de cima, ao contrário dos aplicativos de localização, que reduzem a visão espacial e o aprendizado. Pergunte a um jovem digitalmente viciado: ele mal sabe o nome das ruas da sua própria cidade, o que dirá das cidades em que não mora. Enfia o rosto na tela e obedece mecanicamente: a 100 metros, vire à esquerda; a 200 metros, vire à direita; você chegou ao seu destino. Isso não é flanar. Nem conhecer. Nem se encontrar. Nem se perder. Não é nada além da eliminação do erro e da emoção. Sinto prazer na investigação de rotas, de ter um trabalhinho antes de me situar. Sentada em um café, aproveito para dar uma conferida nas direções, nas atrações, qual a estação de metrô mais à mão. É através do mapa físico que crio familiaridade com os lugares, descubro que rua faz esquina com outra e a quantos quarteirões está o rio (invariavelmente tem um). Talvez, no meio de um trajeto determinado, eu mude de ideia e enverede por vias estranhas, mas o quebra-cabeças geográfico já foi “fotografado” na minha cabeça. Uso o GPS apenas quando há pressa, mas pressa de quê? Prefiro obedecer a minha voz interna, que ora me assopra os rumos da certeza e ora os da incerteza — que, aliás, foi como todos nós chegamos até aqui.