Após uma explosão de ferramentas semelhantes, não falta quem relate uma fadiga dos aplicativos Banner de evento para 'match presencial' realizado às quintas-feiras, em São Paulo — Foto: Reprodução / Redes Sociais RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 30/05/2026 - 20:46 Eventos Offline para Solteiros Crescem em SP em Resposta à Fadiga dos Apps Com a fadiga dos aplicativos de relacionamento em alta, eventos offline para solteiros ganham força em São Paulo. Iniciativas como a Thursday e a Bond promovem encontros presenciais, oferecendo uma alternativa ao "swipe infinito". Além de bares, esportes e dinâmicas sociais, locais como o restaurante Estela Passoni criam espaços para conexões analógicas. Pesquisas indicam que o uso excessivo de apps gera exaustão emocional, destacando a busca por interações mais genuínas fora das telas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando o Tinder foi criado, há 13 anos, os sites de relacionamento já existiam há tempos, mas foi ele que inaugurou o modelo de “deslizar para o lado” em um catálogo de solteiros quase infinito. Nos últimos anos, entretanto, após uma explosão de ferramentas semelhantes, não falta quem relate uma fadiga dos aplicativos do gênero. O fenômeno fez ganhar força eventos para aqueles que, à moda antiga, desejam conhecer alguém novo sem o intermédio das telas. Em São Paulo, diferentemente de bares ou baladas tradicionais, expandiram-se os encontros noturnos em que todos comparecem explicitamente por um motivo: encontrar um parceiro ou parceira. A Thursday começou a iniciativa em Londres e Nova York em 2021, e há dois meses passou a promover as agendas na capital paulista. No primeira, compareceram 190 pessoas, entre homens e mulheres, e em outras edições o número girou em torno de 120 solteiros. A maior parte dos eventos foi voltada a heterossexuais, mas também há a expectativa de fazer algo exclusivo para o público LGBTQIA+. — A gente planeja os eventos, às vezes por faixa etária, e sempre tem alguma dinâmica para incentivar as pessoas a se conectarem — explica Laís Nakamura, host da Thursday São Paulo. Já Cristina Sobral usou de sua inquietação pessoal com o mundo dos relacionamentos para criar a Bond. Sem interesse nos aplicativos e sentindo a dificuldade do flerte presencial, ela se inspirou em iniciativas semelhantes na Europa para idealizar a plataforma, que promoveu seu primeiro encontro em abril. Os ingressos são comprados previamente e há equilíbrio entre homens e mulheres. Pela ferramenta, a pessoa elabora uma minibiografia, fala um pouco de suas preferências e adiciona uma foto. No bar, há o incentivo à interação — cada um recebe um adesivo para colar no peito com seus nomes. Ao fim da noite, o próprio site libera por 24 horas a lista de participantes para que possam se curtir virtualmente. Se der match, vem a troca de contatos, em uma espécie de Tinder às avessas. — Eu penso que as conexões são feitas offline, mas a gente também não largou a tecnologia. Não vai ser do dia para a noite que um cara vai chegar na mulher como ele chegava há dez anos em um bar — opina Cristina. Test drive em Pinheiros O GLOBO acompanhou um desses eventos, há uma semana. Solteiros de 30 a 39 anos se reuniram no mezanino de um bar em Pinheiros, fechado somente para o encontro. Algumas pessoas chegaram sozinhas, outras com amigos e, nos primeiros minutos, o clima é de timidez e apreensão. “O que eu faço?”, era uma pergunta comum que as pessoas perguntavam à hostess, que indicava que a ideia era apenas se apresentar e ir se enturmando. Com o passar das horas, a conversa avançava no ritmo de uns drinques a mais, com direito a uns beijos e casais saindo juntos do bar. Para a maioria, era a primeira experiência do tipo, e a avaliação geral era de que havia sido, no mínimo, divertido. Reduto. Movimento numa quinta à noite num dos pontos mais badalados de São Paulo: bares têm recebido eventos direcionados a solteiros cansados de aplicativos de relacionamento: desejo é por mais conexão na vida real — Foto: Edilson Dantas / O Globo Mas não é só na noite que o desejo por conexões acontece. O restaurante Estela Passoni, em Pinheiros, desde janeiro criou o Paxioni: são caixinhas em que solteiros — de todas idades e gêneros — podem deixar escrito em papéis seus nomes, contatos e o que estão buscando num relacionamento. Outros clientes podem pegar os bilhetinhos e entrar em contato. Essa espécie de Tinder analógico, criado por Mariana Yoshimoto, uma das sócias do restaurante, surgiu após clientes demonstrarem interesse uns nos outros. — Eles colocam Instagram, WhatsApp, alguma característica, algo de que goste muito. O que a maioria me fala é que não aguenta mais aplicativos e que está com dificuldades de conhecer gente nova. As mulheres são as que mais reclamam — conta Mariana, que promoveu em março uma noite de vinhos para solteiros. O mundo dos esportes também tem virado ambiente de paquera. O Inner Circle vem fazendo eventos em São Paulo quase toda semana, como corridas e jogos de vôlei de praia para solteiros no Parque Villa-Lobos, às sextas-feiras de manhã. À noite, os corredores podem se reencontrar para o Wine and Run. Também são realizadas agendas em cafeterias. — A mágica acontece na vida real, quando as pessoas se encontram — diz David Vermeulen, CEO global do InnerCircle. — Os aplicativos mudaram o jeito de as pessoas se conectarem, flertarem. Esses eventos estão na direção certa. Elas estão cansadas do swipe infinito, e nós construímos algo que as conecta pelos seus estilos de vida. 'O mundo mudou' A recrutadora Alessandra Pervelho, de 37 anos, foi a uma corrida para solteiros no Villa-Lobos na semana passada. Ela concorda que “as pessoas desaprenderam a flertar”: — O mundo mudou. Eu morava na Austrália e voltei para o Brasil há quase dois anos. Antes, a gente ia para o bar e as pessoas se engajavam umas com as outras. Hoje, quando eu saio com minhas amigas solteiras, não tem mais isso. Para a bancária Thamyres Silva, de 31 anos e solteira há dois meses, “muita gente não sabe flertar na vida real”, principalmente porque os aplicativos oferecem mais filtros do que fora das telas: — Lá você consegue selecionar a altura da pessoa, uma pessoa que gosta de viajar, que gosta de animais, por exemplo. A gente se acostuma com esses filtros, e no mundo real não é bem assim. Pós-treino. Adeptos de esportes, como corrida de rua, se encontram depois de se exercitarem no parque Villa-Lobos — Foto: Maria Isabel Oliveira / O Globo Uma pesquisa feita em 2024 por pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona, nos EUA, mostrou que, ao longo de 12 semanas, usuários de aplicativos de namoro experimentaram aumento da exaustão emocional e da sensação de ineficácia, especialmente aqueles que já apresentavam depressão, ansiedade e solidão. Outros estudos recentes mostram sentimentos como exaustão, fadiga emocional, física e cognitiva após o uso dos apps. Marco Antonio Corrêa Varella, especialista em psicologia evolucionista da atratividade, sexualidade e dos relacionamentos amorosos, aponta que “o design da maioria dos aplicativos”, ao apresentar um catálogo infinito de “peixes no mar”, pode levar “à objetificação das pessoas e à sobrecarga da informação e comunicação”, o que afeta a “capacidade de tomarmos decisões mais bem orientadas”. — Contraintuitivamente, ao tornar a escolha algo rápido, simples e sem grandes custos, os aplicativos banalizam o momento da escolha, passando por cima de ações custosas, como ser notado, ter boa reputação, ter coragem, oferecer dedicatórias personalizadas, dar tempo ao tempo para não assustar/afugentar o parceiro em potencial — enumera. Esse fenômeno é percebido pelas próprias companhias. No início do mês, a CEO do Bumble, Whitney Wolfe Herd, admitiu que as pessoas estão “cansadas” dos aplicativos e anunciou o “fim do swipe” na plataforma.
De bares a corridas, eventos para solteiros cansados dos apps de relacionamento reinauguram mercado de 'dates' offline
Após uma explosão de ferramentas semelhantes, não falta quem relate uma fadiga dos aplicativos










