Poucos meses após a captura de Nicolás Maduro por Washington, as movimentações recentes também levantam questões sobre até que ponto o modelo aplicado em Caracas pode ser reproduzido com sucesso em Havana Cobertura do hotel Casa Granda, em Santiago de Cuba — Foto: Todd Heisler/The New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 17:11 EUA Intensificam Pressão em Cuba, Mirando Conglomerado Militar Gaesa A pressão dos EUA sobre Cuba, intensificada após a captura de Nicolás Maduro, foca no megaconglomerado militar Gaesa, que controla grande parte da economia cubana. Sanções visam cortar suas receitas, atingindo até sua diretora, Ania Guillermina Lastres Morera. O objetivo americano, segundo especialistas, pode ser forçar uma transição que favoreça seus interesses, especialmente no turismo, apesar da resistência do regime cubano. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A pressão americana sobre Cuba nos últimos meses levou a ilha caribenha a uma crise sem precedentes, com apagões prolongados, escassez de combustível e uma população cada vez mais vulnerável. Agora, o novo capítulo na estratégia de Washington contra o governo cubano, somado ao indiciamento do ex-presidente Raúl Castro, também passa pela Gaesa, o megaconglomerado militar responsável por administrar entre 40% a 70% da economia do país. Poucos meses após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, as movimentações recentes levantam questões sobre os interesses da administração de Donald Trump no país e sobre até que ponto o modelo aplicado em Caracas pode ser reproduzido com sucesso em Havana. A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S.A) virou alvo de Trump em maio, após uma nova ordem executiva que ampliou as sanções contra o país. A medida também teve como alvo sua diretora, a brigadeira-general Ania Guillermina Lastres Morera, entre outras empresas e pessoas ligadas ao grupo. Atividades sigilosas A Casa Branca argumenta que a pressão tem como objetivo "promover a liberdade econômica e a democracia" na ilha caribenha, culpando o grupo pela crise no país. "Enquanto o povo cubano sofre com a fome, doenças e o subinvestimento crônico em infraestrutura crítica, como a rede elétrica, grande parte dos lucros das atividades da Gaesa é desviada para contas bancárias secretas no exterior", declarou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, filho de imigrantes cubanos, em um comunicado no início do mês. Vista do edifício da Gaesa, o principal conglomerado empresarial estatal de Cuba, estreitamente ligado ao setor militar — Foto: ADALBERTO ROQUE / AFP Criada na década de 1990 sob controle das Forças Armadas, a Gaesa administra desde hotéis e resorts até portos, bancos, remessas financeiras, telecomunicações, logística, comércio varejista e construção civil na ilha. Pouco se sabe, porém, sobre sua estrutura interna e até onde se estendem os seus braços na economia cubana. O grupo não presta contas publicamente nem à Assembleia Nacional, sendo raramente mencionado até mesmo pela imprensa estatal — uma busca no jornal oficial Granma durante a apuração desta reportagem não retornou nenhuma referência direta ao conglomerado ao longo da última década. Apesar do sigilo, registros obtidos pelo jornal americano Miami Herald mostraram que o grupo possuía, em março de 2024, ativos avaliados em ao menos US$ 17,9 bilhões (R$ 89 bilhões), incluindo mais de US$ 14,4 bilhões (R$ 72 bilhões) em contas bancárias. Os documentos vazados, porém, não incluem a Cimex, considerada uma das maiores empresas ligadas ao conglomerado, o que pode indicar que seu patrimônio real seja ainda maior. Desde janeiro passado, quando se iniciou o segundo mandato de Trump, sua administração formulou diferentes objetivos para sua política em relação a Cuba, desde uma mudança de regime a um acordo negociado com o governo de Miguel Díaz-Canel, explica ao GLOBO o sociólogo cubano Jorge Duany, professor emérito da Universidade Internacional da Flórida (FIU). Porém, uma abertura econômica substancial, para o professor, "parece improvável sem reformas políticas, incluindo uma reconsideração do papel central das Forças Armadas na economia". — A principal estratégia agora é cortar as receitas da Gaesa e bloquear todas as transações financeiras com entidades ligadas ao conglomerado (...), excluindo o grupo de qualquer negociação — explica Duany. Já para o professor Paolo Spadoni, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Augusta, nos EUA, a pressão pode sugerir interesses mais amplos. Em um artigo publicado no projeto Horizonte Cubano, da Universidade de Columbia, ele argumenta que o turismo — uma das principais fontes de divisa da ilha e sob amplo controle da Gaesa — pode estar no centro da estratégia americana de uma "tomada amigável de poder", como declarou Trump em março. Segundo ele, o americano pode tentar usar a pressão econômica não necessariamente para provocar o colapso do regime, mas forçar uma transição negociada que abra espaço para reformas e acordos favoráveis aos interesses dos EUA, sobretudo no turismo. Mesmo em queda nos últimos anos, o setor movimentou cerca de US$ 1,3 bilhão (R$ 6,6 bilhões) em 2023, segundo dados oficiais. "O turismo representa o único setor da economia cubana capaz de proporcionar oportunidades de investimento rentáveis com retornos imediatos para empresas americanas (...), à medida que se avança rumo a maiores liberdades políticas e econômicas na ilha", escreveu. Duany, por sua vez, discorda de que haja algum tipo de interesse senão aquele declarado oficialmente: — A possibilidade de os EUA quererem incentivar investimentos privados americanos parece secundária em relação ao objetivo principal de reduzir o controle do governo cubano sobre a economia. Ainda assim, uma fonte ligada às discussões do governo sobre Cuba, cuja identidade foi preservada, afirmou ao site Politico que a administração americana de fato tem mantido conversas com empresários sobre possíveis investimentos futuros na ilha, embora não tenha detalhado quais setores estariam envolvidos. Apesar disso, Washington avalia que Cuba precisaria passar por mudanças políticas e econômicas profundas antes que empresas americanas considerassem investir na ilha. Sem divisões internas Essas mudanças, porém, não ocorreriam de forma simples. Um dos principais pilares de sustentação do regime, a Gaesa é o maior símbolo da integração entre as Forças Armadas e o Partido Comunista, numa estrutura consolidada após o colapso da União Soviética na década de 1990. Mirá-la, portanto, é uma tentativa de Washington de cercar a cúpula de poder cubana. Até agora, contudo, a ofensiva americana não provocou divisões públicas dentro da elite dirigente, destaca Duany: Modelo Venezuelano A estratégia de mirar lideranças estrangeiras para processá-las em seus tribunais, além das pressões econômicas e ameaças militares, remetem inevitavelmente ao modelo adotado pelo governo Trump na Venezuela, que culminou na deposição de Maduro em janeiro — e o qual Washington considera um sucesso. Ainda assim, especialistas avaliam que repetir os mesmos passos em Cuba seria uma tarefa muito mais complexa. — Não há figuras reformistas dentro do aparato de poder, é um sistema muito mais unificado — explica ao GLOBO a socióloga cubana Marlene Azor. — Os reformistas foram caindo pouco a pouco. A concentração de poder em Cuba é maior, e o número de pessoas no topo do poder é muito menor do que na Venezuela. Além disso, diferentemente da Venezuela, cuja economia depende do petróleo, Cuba não tem um setor dominante amplamente explorável, ainda que haja o interesse no setor do turismo e também no agrícola. Analistas apontam que as décadas de isolamento e de economia centralizada enfraqueceram o setor privado do país, tornando qualquer abertura econômica mais complexa e dependente do fim das sanções americanas e de entraves históricos. Na avaliação de Azor, o regime cubano, porém, não demonstra disposição real para nenhum tipo de negociação nesse sentido: — A elite cubana não é capaz de oferecer uma transição verdadeira. A posição deles seria: "oferecemos todas as praias de Cuba e todos os recursos naturais para que vocês invistam e façam o que quiserem, desde que continuemos no poder". A mudança real teria de acontecer por meio da força.
Império militar na mira: Pressão sobre conglomerado cubano levanta debate sobre interesses dos EUA na ilha
Poucos meses após a captura de Nicolás Maduro por Washington, as movimentações recentes também levantam questões sobre até que ponto o modelo aplicado em Caracas pode ser reproduzido com sucesso em Havana
Trump sancionou a Gaesa, conglomerado militar cubano com US$ 17,9 bi em ativos que controla até 70% da economia da ilha. A pressão visa forçar acesso ao turismo cubano (US$ 1,3 bi/ano), único setor da ilha com retorno imediato para investidores americanos.









