Proposta tirou esquerda da inércia, emparedou Centrão e deixou bolsonarismo sem saída O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (27), em primeiro turno, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas por semana em até 14 meses e permite o fim da escala 6x1. A proposta foi aprovada por 472 votos a 22 — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 30/05/2026 - 13:18 Câmara aprova extinção da escala 6x1 e reduz jornada para 40h semanais A proximidade das eleições impactou a Câmara: foi aprovada a extinção da escala 6x1, reduzindo a jornada para 40 horas semanais, com apoio de 95% dos deputados. A proposta, desacreditada meses atrás, ganhou força após viralização de um desabafo online. A esquerda saiu da inércia, o Centrão cedeu à pressão eleitoral e o bolsonarismo ficou sem alternativas, apesar das manobras para travar a votação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A proximidade da eleição faz milagres. Na quarta-feira, a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Meses atrás, pouca gente em Brasília acreditava que a proposta iria adiante. Não só foi, como passou com folga: teve apoio de 95% dos deputados presentes. O placar de 472 a 22 pode dar a impressão de que os parlamentares fizeram uma autocrítica e decidiram se irmanar em defesa da classe trabalhadora. Não foi bem isso. A derrubada da 6x1 é resultado de uma articulação rara, que tirou a esquerda da inércia, emparedou o Centrão e deixou o bolsonarismo sem saída. O primeiro passo foi dado nas redes, onde um balconista de farmácia viralizou ao desabafar contra a rotina exaustiva. Rick Azevedo se elegeu vereador no Rio pelo PSOL e ofereceu uma nova bandeira ao campo progressista. A causa ganhou tração. Em março, o Datafolha informou que 71% dos brasileiros defendiam os dois dias de descanso semanal. O Planalto aproveitou o embalo e anunciou o envio de um projeto com urgência constitucional, que precisaria ser votado em 45 dias. Sob pressão, o deputado Hugo Motta resolveu pautar as propostas de redução de jornada que já adormeciam em sua gaveta. Pensava na própria reeleição e no risco de ver seu grupo ser carimbado, mais uma vez, com a pecha de “inimigo do povo”. A guinada do Centrão desnorteou os bolsonaristas. Com medo da derrota, eles passaram a bater cabeça em público. Tentaram atrasar a votação, propuseram uma transição de dez anos e, na última hora, lançaram o factoide da escala 4x3. Nada colou, e parlamentares que demonizavam a proposta se viram premidos a endossá-la. Num discurso inusitado, Nikolas Ferreira, do PL, declarou voto a favor e vaticinou que o fim da 6x1 provocaria demissões em massa. “Esse dia vai ser maravilhoso”, acrescentou, sem corar. Em 2022, o jovem bolsonarista foi premiado por 1,47 milhão de mineiros com a maior votação do país. Deputados que se mantiveram fiéis aos lobbies empresariais acusaram colegas da direita de traição. “São todos boca de mousse, não têm coragem de dizer não”, esbravejou Gilson Marques, líder do Novo. “Há muita gente que defende uma coisa no bastidor, mas na hora de colocar a digital não tem coragem”, reforçou Kim Kataguiri, do Missão. Quando Motta abriu a sessão, quase todos já sabiam que a proposta seria aprovada com facilidade. Quem se surpreendeu devia estar desatento aos sinais emitidos por figuras como o chefão do PL, Valdemar Costa Neto. Em fevereiro, num jantar com grã-finos paulistas, o dono do partido de Bolsonaro havia prometido bloquear qualquer tentativa de acabar com a 6x1. “Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, assegurou, sob aplausos. Passados três meses, ele se rendeu ao instinto de sobrevivência política. “Nós não podemos ser contra”, disse, na segunda-feira. “Se nós não aprovarmos a 6x1, o Lula ganha a eleição”, justificou-se.