Há um nome para designar aqueles militantes que viram a casaca e passam a colaborar com a ditadura: cachorros. Cabo Anselmo, o mais notório agente duplo a serviço da ditadura militar brasileira, entregou dezenas de militantes para o delegado Sérgio Paranhos Fleury, inclusive sua namorada, a guerrilheira Soledad.
A protagonista de "O Voo da Locomotiva", sexto livro que Frei Betto lança sobre esse período, também delatou. Mas o escritor e teólogo de 81 anos, que falará neste domingo (31) na Feira do Livro, não a condena.
O autor prefere escrutinar as contradições humanas sob regimes de exceção, usando a ficção para tratar de um tema que ele define como "suicídio moral": a trajetória daqueles que, sob tortura, repassaram a seus algozes informações que vitimaram companheiros de luta.
A trama tem por base a história real da chilena Luz Arce, que Betto conheceu nos anos 1970. Foi a própria Luz, uma ex-guarda-costas do governo de Salvador Allende, que lhe contou como virou agente colaboradora da ditadura de Augusto Pinochet, a mesma que a torturou brutalmente. Ela escreveu um livro sobre isso, "O Inferno".
O frade dominicano, ele próprio preso e torturado pelos militares brasileiros no passado, diz à Folha que ficou "mordido pela ideia de um dia transformar isso num romance adaptado ao Brasil". Foi o que fez. Rosa Maria é quem personifica a descida aos infernos de uma militante de esquerda.












