Colecionar ensina a lidar com valores, frustração, negociação e desejo. É caro, mas vale muito Na Escola Eleva, as trocas de figurinhas da Copa do Mundo entre alunos do Ensino Fundamental I são assistidas — Foto: Divulgação Escola Eleva RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Apesar do alto custo financeiro para completar o álbum da Copa, estimado em mais de R$ 7 mil devido às repetidas, a atividade funciona como uma valiosa ferramenta de socialização e aprendizado prático sobre economia e negociação. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO De quatro em quatro anos, à medida que as temperaturas caem, um fenômeno toma as ruas e vielas das grandes cidades brasileiras. Os ambientalistas não conseguem explicar a correlação entre os fatores. Os ortopedistas seguem preocupados com o possível aumento dos casos de tendinite entre as crianças e os jovens adultos. Os ossos e articulações em formação das mãos são repetidamente desrespeitados por bolinhos enormes de figurinhas adesivas que dançam de um dedo a outro com uma velocidade impressionante. Os infectologistas já não sabem o que dizer. Se no passado atormentaram os pais sobre os perigos das viroses na primeira infância, agora se chocam com crianças em roda, sentadas no chão, a dar tapas a vácuo em bolinhos de papel imundos como se ali morasse a solução para toda sorte de problemas. É o bafo. Nem mesmo os educadores têm certeza do que fazer. Como li em uma reportagem recente do GLOBO, os colégios do Rio de Janeiro correm para estabelecer códigos de conduta, responsabilidades e consequências para alunos, professores e funcionários. Para o desespero dos colecionadores, quem for visto com álbum da Copa do Mundo em sala de aula terá o bem confiscado e só o receberá de volta com a presença dos pais. É o prejuízo do prejuízo. Afinal, como alertam os gurus das finanças, os chatos das planilhas e os consultores de economia doméstica, colecionar álbuns de figurinhas é um dos piores investimentos da História. Eles fazem as contas: o álbum mais barato custa R$ 24,90, cada pacotinho sai por R$ 7 e cada livreto conta com 994 espaços vazios. Se você tiver a sorte dos deuses e não receber nenhuma figurinha repetida, gastará mais de mil reais. Mas, como você não é, estima-se que você perca R$ 7.362,90 com papel, cola e tinta para completar um álbum. Perda ou ganho? Ganho! A troca de figurinhas é uma baita ferramenta de socialização de crianças e adolescentes. Quem monta um álbum aprende a classificar, a hierarquizar, a precificar e a calcular o valor das coisas. Aprende a perceber o peso diferente dos objetos de desejo, como a escassez cria valor, como negociar exige escuta e ceder faz parte do jogo. Entre brincadeiras e disputas, aprende que, apesar de as figurinhas saírem da máquina de impressão pelo mesmo preço, umas valem mais do que outras. A mais brilhante vale mais do que a fosca, a rara vale mais do que a comum e a do jogador mais cobiçado vale mais do que qualquer outra (independentemente das resoluções do Procon). É a mesma lógica que vai definir, anos mais tarde, por que dois apartamentos no mesmo bairro têm preços distintos, por que certa bolsa de luxo vale mais do que uma sacola de mercado, mesmo sabendo que as duas têm a mesma finalidade prática. Essa assimetria não é arbitrária nem acidental. Ela revela uma das operações mais sofisticadas da vida social: a distinção entre valor real e valor simbólico. O primeiro é o preço, objetivo e igual para todos. O segundo é construído coletivamente, negociado entre os pares e confirmado pelo grupo. Em tempos marcados pela invasão tecnológica e pela falta de saliva e argumentos dos mais velhos para convencer os novatos a deixarem as telas de lado, a troca de figurinhas é um laboratório onde se aprende sobre valor, frustração, negociação e desejo. Apesar dos custos, vale muito. Recomendo a jovens e adultos. Papo de antropólogo.
A pedagogia da troca de figurinhas
Colecionar ensina a lidar com valores, frustração, negociação e desejo. É caro, mas vale muito













