Durante os encontros, as crianças aprendem a esperar, lidar com a frustração e até mesmo a negociar Crianças se reúnem semanalmente em condomínio na capital paulista para troca de figurinhas — Foto: Agência O Globo/ Edilson Dantas RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 16:29 Álbuns de Figurinhas da Copa Promovem Socialização Pós-Pandemia A febre dos álbuns de figurinhas da Copa do Mundo está promovendo uma reaproximação social entre jovens, compensando a perda de convívio presencial exacerbada pela pandemia e pelo uso excessivo de telas. Além de estimular a socialização, o fenômeno ensina crianças a negociar e lidar com frustrações. Especialistas destacam a importância dessas interações para o desenvolvimento emocional e a formação de habilidades sociais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Eles estão por toda parte: nas escolas, nos shoppings, dentro dos condomínios, em espaços públicos, abertos ou fechados. A febre do álbum de figurinha da Copa do Mundo está arrastando crianças e adolescentes (e até mesmo adultos), com um benefício pouco esperado: o retorno da socialização. Entre aplicativos de mensagem e redes sociais, nos últimos anos os jovens perderam parte do convívio presencial, e o fenômeno das figurinhas, ainda que cercado por críticas relacionadas aos custos e consumismo, trouxe uma reaproximação. Durante os encontros, além de trocar figurinhas, as crianças aprendem a esperar (pela figurinha desejada), lidar com a frustração (quando não conseguem a desejada) e a negociar (nem sempre uma vale uma). — Em uma geração imediatista, em que eles têm tudo na palma da mão, essa criação de expectativa ao abrir um novo pacote e o não saber o que pode vir, é importante para o desenvolvimento emocional delas. Esses encontros são reais, fogem do virtual, produzem conversa, negociação, senso de comunidade e aproximação. O valor da interação social é muito maior do que qualquer outra coisa — avalia a psicanalista Renata Bento, da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. A psicóloga e doutora em psicanálise Carolina Nassau Ribeiro explica que é a partir da socialização que formamos quem somos como pessoas, quais são nossos limites, regulamos nossas emoções e aprendemos a resolver conflitos. — Me falaram sobre um menino que estava tentando trocar todas as figurinhas repetidas que tinha por uma rara, difícil de conseguir. Só nessa ação, essa criança lida com a frustração de não conseguir a figurinha e ao mesmo tempo cria um plano para resolver o problema. Ele não desiste, não para de falar com a pessoa ou simplesmente a bloqueia, como ocorre nas redes sociais. Isso se torna anticorpo na vida adulta para essas crianças e adolescentes — diz. Socialização Com a pandemia, experiências coletivas como essas viraram um risco de saúde. As pessoas se acostumaram a ficar sozinhas dentro de casa, lidando com sua própria companhia. E isso acabou tendo um custo muito alto para as crianças e adolescentes que perderam o convívio com as pessoas da mesma idade. Há alguns anos, essa febre não é mais um território somente masculino — Foto: Agência O Globo/ Edilson Dantas Consequentemente, houve um aumento nos casos de isolamento, depressão, ansiedade e crescimento no uso de telas. Os especialistas são claros ao afirmar que houve uma redução na socialização até mesmo entre aqueles que gostam de estar na presença de outros. — Na história, estamos vivendo a fase mais complicada da socialização. Escuto sempre na clínica que é algo dispensável. Não é mais natural que as crianças e adolescentes socializem e isso acontece, muitas vezes, por falta de estímulo dos próprios pais — explica a psicóloga Priscila Martins. Segundo ela, os pais estão ficando menos sociáveis. E, para eles, é seguro que seus filhos também estejam, pois ficam dentro de casa, à vista. Mesmo que estejam com uma tela em suas mãos, estão dentro de casa “seguros”. Essa falta de conversa e traquejo social é, segundo Martins, “viciante e prazerosa”, pois não interagir poupa de riscos, desgastes e problemas a serem resolvidos. — Mas nós precisamos de troca e de pessoas. Principalmente entre as crianças e adolescentes quando a interação, além de ser diferente, gera brincadeira e aprendizado. Em uma simples conversa, eles lidam com chateação, alegria, aprendem a cair e levantar. Isso é algo que vem de cima para baixo, enquanto os pais não aprenderem a mudar a forma como veem a questão da socialização, isso não vai mudar ou melhorar — diz Martins. Geração que falta desejo E, por isso, essa febre do álbum de figurinhas se torna essencial para um novo começo. Entre adultos, entre pais e filhos, e entre as próprias crianças. Para os especialistas, os pais devem estimular esses encontros presenciais. Levar as crianças aos pontos de troca em shoppings ou condomínios, organizar uma mesa de trocas em casa, deixar o filho convidar amigos para abrir pacotinhos juntos, fazê-las saírem de casa e não ficar nas telas. E, o mais importante, deixá-las resolverem seus próprios problemas: só perguntar qual é o plano para completar o álbum, ou o que ela vai fazer para conseguir aquela figurinha que ela não tem, como será a negociação dela. Para o pediatra e colunista do GLOBO, Daniel Becker, esse espaço de convívio que o álbum de figurinhas oferece traz as crianças para algo mais real. — Eles folheiam e não digitam. A socialização é fundamental e precisa ser incentivada. A ênfase dela tem que ser no brincar. Crianças colocadas uma em frente a outra sem algo para fazer vão descobrir alguma relação na brincadeira e vão inventar alguma coisa. É importante incentivar isso. O álbum pode ser um chamariz para retomar e estimular outras brincadeira ou até mesmo para um passeio maior como ir a um museu ou parque — diz o pediatra. Sabemos que o álbum não vai permanecer por muito mais tempo. Após o final da Copa do Mundo, as chances dele cair no esquecimento e as crianças voltarem às telas são grandes. Uma maneira de continuar essa socialização, como o próprio pediatra disse, é normalizar os passeios ao ar livre. Fazer idas a museus, exposições, parques e andar de bicicleta virar habitual. Estimular os encontros nos condomínios. Praticar atividades físicas e esportes na quadra. Os pais devem incentivar também os jogos e as brincadeiras sociais, como futebol, pega-pega, esconde-esconde, além de jogos de tabuleiro e quebra-cabeça. Até mesmo o próprio bafo com as figurinhas que sobrarem. — As crianças de hoje têm acesso a tudo e a tanta coisa que ao querer um lápis, os pais compram a caixa inteira. A tela, por exemplo, dá a eles algo pronto e desenhado. E elas precisam aprender a construir e desconstruir, aprender a sonhar, estimular a criatividade. É uma geração que falta desejo e elas precisam voltar a desejar. São nessas pequenas brincadeiras que a fantasia floresce e o desejo é criado — explica a psicanalista Renata Bento. Negociação e finanças Becker diz que outro lado positivo da experiência das figurinhas, e talvez um dos mais importantes, é aprender a arte da negociação e um pouco sobre o lado financeiro das coisas. — Se eu fosse pai de uma criança escolar hoje, ao invés de dar dinheiro para o meu filho comprar pacotes fechados, eu o incentivaria a comprar a figurinha repetida de outros meninos por uma fração do preço. Por exemplo, se ele precisa daquela figurinha que o outro tem, ele propõe um preço e negocia. Isso fortalece a educação financeira e as habilidades de negociação e resolução de conflitos — explica o pediatra. É o que está acontecendo na casa da Danielly Garcia. A empresária do ramo de eventos é mãe de Miguel, 14 anos, Pedro, 12 e João, 5. Os dois mais velhos trabalham como “Jovem Aprendiz” na empresa da mãe e, recentemente, ganharam o primeiro salário. Eles decidiram usar o dinheiro na compra de figurinhas. Segundo a mãe, eles mesmos fizeram os cálculos de quantos pacotinhos iriam comprar, quanto do montante guardariam e o que fariam se eles não conseguissem as figurinhas que precisavam. Os irmãos, Miguel, 14 anos, Pedro, 12 e João, 5, tiveram mudanças no comportamento e na socialização depois do álbum de figurinhas — Foto: Agência O Globo/ Edilson Dantas — Eles quiseram ter essa sensação de comprar algo com o dinheiro deles. Fizeram o plano financeiro de quanto gastar e investir. Acredito que esse desejo de querer algo, trabalhar para isso e conquistar cria uma memória afetiva que vai ficar guardada para sempre — afirma Garcia. Ela afirma que consegue enxergar uma diferença na postura do menor de cinco anos. — O João vê os irmãos mais velhos fazendo isso e já quer guardar um dinheiro para comprar novos pacotes. Eu já o vi negociar a troca de uma figurinha rara. Algo que eu nem sabia que ele já era capaz de fazer. E foi algo natural que não ensinamos para ele. Outro problema que foi resolvido com o álbum foi um pouco da timidez do filho mais velho. Segundo Garcia, como eles se mudaram há pouco tempo, Miguel estava com dificuldade para fazer novas amizades e, com a troca de figurinhas, já foi adicionado no grupo dos meninos do condomínio. — Entre os dois mais velhos, que normalmente há brigas e discussão de irmãos, está tendo mais harmonia. Espero que, mesmo com o final do álbum, isso continue, porque o material e as telas vão embora, mas os laços que eles criam, entre eles e com outras pessoas, ficam para sempre — diz Garcia. Os álbuns da Copa são uma tradição antiga no Brasil — a Panini os publica desde 1970, e eles sempre foram um fenômeno cultural. Mas, nas décadas de 1990, 2000 e mesmo 2010, a imagem mais comum era a de meninos colecionando, trocando figurinhas na escola e acompanhando futebol. Isso, nos últimos anos, mudou bastante. Agora, meninas de diferentes idades se juntam a roda, sentam no chão, trocam de figurinha e muitas vezes até jogam bafo na tentativa de angariar mais algumas figurinhas. O álbum tem sido uma ponte entre a comunicação de meninos e meninas que, em algumas etapas da infância e adolescência, não se vê essa junção. Felizmente, essa febre não é mais um território somente masculino. É uma brincadeira para todos.
Como a febre dos álbuns da Copa está tirando crianças e adolescentes do isolamento social e familiar; o que dizem os especialistas
Durante os encontros, as crianças aprendem a esperar, lidar com a frustração e até mesmo a negociar












