'A intenção é fazer um novo recife do zero', diz pesquisador envolvido em esforços de recuperação Projeto mira reconstrução de recifes marinhos — Foto: Roberto Costa Pinto/Wikimedia Commons RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 22:07 UFRJ lidera projeto inovador de reprodução de corais em laboratório O projeto pioneiro da UFRJ de reprodução de corais em laboratório busca reconstruir recifes marinhos ameaçados pelo aquecimento global, que pode extinguir até 90% desses ecossistemas. Liderado por Cristiane e Fabiano Thompson, a iniciativa visa restaurar áreas degradadas no Brasil, como Abrolhos e Região dos Lagos, utilizando técnicas inovadoras para acelerar a reprodução e garantir a conservação dos corais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Durante o último carnaval, a UFRJ foi tomada pela folia, mas por um motivo mais específico do que a festa dos blocos e das escolas de samba. Naqueles dias, a universidade se tornou a primeira do Brasil a realizar reprodução de corais em laboratórios. O feito, do Laboratório de Bioeconomia, pode abrir novos caminhos para o futuro desse que é um dos ecossistemas mais vulneráveis e sob maior risco de extinção diante das mudanças climáticas. Se o ritmo de aquecimento dos oceanos for mantido nas próximas décadas, de 70 a 90% dos recifes de corais, que abrigam cerca de 25% da biodiversidade marinha, podem desaparecer, segundo as projeções. O projeto de reprodução em laboratório, liderado pelo casal Cristiane e Fabiano Thompson, começou no ano passado, com a intenção de aumentar a população de corais, e assim restaurar recifes que vêm se degradando, como na Região dos Lagos e no Nordeste, em especial em Abrolhos (BA), onde fica o primeiro parque nacional marinho do Brasil. Os pesquisadores ficaram cerca de um ano monitorando as águas de Arraial do Cabo (RJ), de onde retiraram espécimes de coral-cérebro, endêmico (só ocorre no Brasil) e o mais famoso do país, que inclusive ilustra a nota de R$100. Os corais foram extraídos quando estavam prontos para reproduzir. Depois, foi montado um aquário na laje do laboratório, em um ambiente controlado e mantendo as incidências do sol e da lua. Entre quinta e domingo de carnaval, os ovos eclodiram e geraram as larvas, que futuramente formarão os corais. — Há mais de 20 anos estudamos a degradação dos corais, em Abrolhos, no Japão, Caribe e Austrália. A degradação é global. Com a perda dos corais, nos resta qual alternativa? Uma abordagem intervencionista. Vamos produzir os corais no laboratório, e assim reconstruir os recifes. A intenção é fazer um novo recife do zero, como se fosse uma agricultura dos corais — explica Fabiano Thompson, que cita inspirações em projetos semelhantes nos EUA e na Austrália. Projeto mira reconstrução de corais e recifes — Foto: Divulgação As larvas, que posteriormente viram os pólipos - a unidade de coral, que forma os recifes - estão armazenadas em nitrogênio líquido, em técnica semelhante ao congelamento de óvulos humanos. Segundo Thompson, há um potencial de geração de milhões de corais. Mas por enquanto o material está sendo usado para testes e estudos, enquanto o laboratório tenta recursos e financiamentos para a segunda etapa do projeto: a implantação desses corais nos ambientes degradados. A Região dos Lagos e Abrolhos são locais citados por Thompson como prioridades no Brasil. — Só a reprodução natural não dá mais conta de manter essa população. Por isso a abordagem intervencionista, para acelerar a reprodução. E tem que ser feito de modo rápido. — alerta Fabiano Thompson. Corais são hermafroditas e liberam tanto espermatozoides quanto óvulos, e cada um dos óvulos fecundados forma uma larva. No oceano, acontecem milhões de desovas no período reprodutivo, mas 99% das larvas são comidas por outros peixes. A formação de um recife leva centenas e até milhares de anos. Esse ciclo natural deveria manter a população equilibrada, não fossem as mudanças climáticas e a poluição marinha. — A maior relevância do projeto é a possibilidade de conservar os corais em maternidades e berçários de corais. Fazer isso dentro de uma condição controlada abre uma boa perspectiva de prever e escalar a produção mesmo longe do mar — afirma Felipe Landuci, professor adjunto da UFRJ e que trabalha no projeto. — Podemos apoiar novos estudos com base neste material genético. É um primeiro passo para mais descobertas. Estudos do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, concluíram que as ondas de calor e o aquecimento dos oceanos, que bateram recorde nos últimos dois anos, estão provocando a morte em massa dos corais pelo mundo. A água aquecida gera estresse térmico desse ecossistema e resulta no chamado "branqueameto dos corais", processo em que as algas que ficam dentro dos corais, lhes fornecendo energia, são expulsas diante do calor, e os recifes ficam brancos. A situação vem afetando santuários importantes, como a Grande Barreira de Corais, na Austrália. Projeto mira reconstrução de corais e recifes — Foto: Divulgação Segundo a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), agência de estudos oceanográficos do governo dos EUA, cerca de 75% dos recifes do mundo já sofreram algum nível de estresse térmico, e as projeções do IPCC são de que, com um aquecimento do planeta de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, entre 70% e 90% dos corais do mundo podem desaparecer nas próximas décadas. Os 1,5 °C de aquecimento são o limite estabelecido pelo Acordo de Paris, em 2015, mas que entidades internacionais já admitem que será extrapolado até 2030. Além do aquecimento dos oceanos, a poluição, desde esgoto sanitário a acidentes com derramamento de óleo, é outra ameaça frequente aos corais, que abrigam cerca de 25% da vida marinha. Professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará, Marcelo Soares faz uma analogia para explicar a importância dos corais - as árvores dos oceanos - como berçários da vida marinha. — Os recifes de corais seriam como as florestas tropicais. Do mesmo jeito que a gente tem a floresta amazônica, que é um dos sistemas de maior riqueza em termos de vida na área terrestre, os recifes de corais são os sistemas mais ricos dos oceanos. Isso tem uma grande importância para a pesca artesanal, o turismo e a proteção das áreas costeiras, como uma barreira de defesa contra tempestades e ondas fortes — explica Soares. — São os corais que constroem essa floresta marinha ao longo de séculos, e a onda de calor é como se fosse um grande incêndio debaixo d'água. Com um cenário de risco sobre a maior parte dos ambientes de recife nos próximos 50 anos, muitos lugares, como na Austrália, Oriente Médio, Caribe e Europa vêm investindo na restauração de áreas através da reprodução de corais em laboratórios, diz Soares. — Esse desenvolvimento é importante, mas é importante dizer que isso não substitui, sob hipótese alguma, a necessidade de conservação das áreas, de combate às mudanças climáticas e de controle da poluição.
'Agricultura de corais': projeto mira reconstrução de recifes marinhos, ameaçados de sumir com o aquecimento dos oceanos
'A intenção é fazer um novo recife do zero', diz pesquisador envolvido em esforços de recuperação









