Recuperação de áreas degradadas avança com reflorestamento e saneamento, mas especialistas defendem ações permanentes para garantir sobrevivência dos ecossistemas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Programa de replantio da Iguá Rio — Foto: Divulgação/Acervo da Iguá Rio RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 18:39 Desafios e Iniciativas para Preservar Manguezais no Rio de Janeiro O mês de julho destaca a importância dos manguezais, essenciais para o equilíbrio ambiental e berçário de diversas espécies. Na Barra e Jacarepaguá, a recuperação dessas áreas enfrenta desafios devido à urbanização desordenada e falta de saneamento. Projetos de reflorestamento e saneamento, como o da Iguá Rio, buscam reverter a degradação, mas especialistas alertam para a necessidade de ações contínuas e educação ambiental. A proteção legal trouxe avanços, mas a expansão urbana ainda ameaça esses ecossistemas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Julho é o mês dedicado à proteção dos manguezais, que funcionam como berçário de diversas espécies, filtro natural da água e aliados no combate às mudanças climáticas, sendo fundamentais para o equilíbrio ambiental das regiões costeiras. O Complexo Lagunar da Barra da Tijuca e Jacarepaguá é um retrato dos desafios enfrentados para garantir a sobrevivência destes ecossistemas no Rio. Entre áreas que começam a apresentar sinais de recuperação e problemas históricos que ainda persistem, os manguezais da região estão no centro de um processo que demanda reflorestamento, dragagem, saneamento e fiscalização, na tentativa de interromper décadas de degradação. O cenário atual é resultado da ocupação urbana acelerada da Baixada de Jacarepaguá, área originalmente marcada pela presença de rios, lagoas e manguezais, diz a ambientalista Cris Queiroga, fundadora da ONG SOS Lagoas. — Se tivéssemos que fazer um raio X do Complexo Lagunar hoje, o que apareceria não seria apenas a situação dos manguezais, mas um retrato da nossa própria sociedade: falhas de saneamento, desordem urbana, ocupação irregular e falta de fiscalização e punição — afirma ela. Nos últimos anos, iniciativas de recuperação ambiental vêm transformando parte da paisagem das lagoas. Uma das principais em andamento é conduzida pela Iguá Rio, concessionária de água e esgoto da região. O programa Juntos Pela Vida das Lagoas realizou até agora o plantio de aproximadamente 85 mil mudas de mangue, e a meta é chegar a 240 mil até o fim de 2027, quando terá sido reflorestada, no total, uma área de 328 mil metros quadrados — cerca de 46 campos de futebol do tamanho do Maracanã — , segundo a empresa. Mudas de mangue plantados pela Iguá Rio — Foto: Divulgação / Acervo da Iguá Rio Especialistas alertam que a recuperação dos manguezais depende de vários fatores. A melhora da qualidade da água, o controle da chegada de resíduos, a ocupação ordenada do solo e a manutenção das ações ambientais são apontados como pontos fundamentais para que o ecossistema volte a exercer plenamente suas funções. — Um manguezal reflorestado às vezes leva décadas para recuperar plenamente suas funções ecológicas. Por isso, preservar os manguezais que ainda existem e impedir que a degradação continue é tão importante quanto plantar novas mudas — explica Cris Queiroga. Transformação do cenário O biólogo Mario Moscatelli, que atua como consultor da Iguá, diz que a recuperação promovida pela concessionária marca uma mudança no cenário de abandono. — Em três anos e meio, foram retiradas cerca de 350 toneladas de resíduos dos manguezais da região e instalados sete quilômetros de telas de proteção de margens, mas o lixo segue sendo uma preocupação — observa. Ele pontua que mesmo com o trabalho de remoção de lixo, seis sofás foram retirados do complexo lagunar somente nos últimos quatro meses, numa prova de que o descarte irregular de lixo ainda é fonte de preocupação. Em rápido passeio de barco, veja a quantidade de lixo arremessado na Lagoa da Tijuca Em nota, a Comlurb informou que realiza ações de coleta domiciliar e limpeza em comunidades da região para evitar que resíduos sejam descartados irregularmente em rios, lagoas e canais. A companhia informa ter instalado ecopontos para entrega voluntária de resíduos em 12 comunidades da Zona Sudoeste, incluindo seis destinados ao atendimento de Rio das Pedras e Muzema. Além disso, acrescenta, realiza coleta domiciliar, bem como remoção de entulho e bens inservíveis, nas sete ilhas da Barra da Tijuca. Crescimento urbano A relação entre crescimento urbano e perda de áreas naturais também é apontada pelo coordenador da Rede UFF de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Júlio César Wasserman. Para ele, apesar dos avanços na proteção legal dos manguezais, a expansão da cidade trouxe impactos difíceis de reverter. — O aspecto positivo é que, com a Constituição Federal de 1988, os manguezais passaram a constituir áreas protegidas e sua destruição se reduziu bastante. Por outro lado, a intensa ocupação das bacias das zonas Sudoeste e Oeste não é positiva — diz. De acordo com o especialista, o mangue depende de condições específicas para se manter e expandir. — A dispersão dos ecossistemas de mangue ocorre por meio de sementes que precisam encontrar áreas adequadas para se fixar. Quanto mais modificamos as áreas de costa, menor é a cobertura de manguezais — explica. A Iguá concorda que para a recuperação dos manguezais deve haver um conjunto de ações. Seu diretor de operações, Lucas Arrosti, afirma que o reflorestamento faz parte de um projeto mais amplo. — Os manguezais têm papel fundamental na preservação da biodiversidade e no equilíbrio ambiental das lagoas. Por isso, o nosso projeto une saneamento, recuperação ambiental e infraestrutura para impulsionar a melhora do sistema lagunar da região. Segundo Arrosti, outra frente é a instalação dos coletores de tempo seco, estruturas que interceptam esgoto lançado irregularmente nas galerias pluviais. De acordo com a empresa, 24 pontos foram implantados no Arroio Fundo e no Canal das Taxas, evitando o despejo de cerca de 20 milhões de litros de esgoto por dia no sistema lagunar. Ilustração de como funciona o CTS introduzido pela Iguá na Zona Sudoeste do Rio — Foto: Divulgação A empresa acredita que tais medidas foram fundamentais para que sinais de recuperação começassem a aparecer, como a observação, na Lagoa da Tijuca, da biguatinga, ave que nunca havia sido registrada formando ninho no Rio. Mais de 16 aves surgiram nas águas da região desde o início do trabalho, contabiliza. Mas para Marcio dos Santos, morador da região há 43 anos e fundador do projeto Inmar, a recuperação ainda demanda outras ações. — É preciso fortalecer a educação ambiental dos moradores da Zona Sudoeste, não só das comunidades, mas também dos condomínios, além de acelerar o trabalho de dragagem e seguir com ações de replantio. Ainda há muito lixo e poluição agredindo o complexo — pondera. A prefeitura informa que a Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima realiza ações de fiscalização em áreas de mangue por meio da Patrulha Ambiental, acionada através da central 1746. Destaca ainda que os manguezais são protegidos como Áreas de Preservação Permanente (APPs) pela legislação federal e que a Política Urbana e Ambiental do Município condiciona a ocupação urbana à preservação desses ecossistemas. Recentemente, foram criadas duas unidades de conservação como parte da implementação do Corredor Azul, incluindo a Área de Proteção Ambiental (APA) das Lagoas de Jacarepaguá, que amplia a proteção das áreas de mangue no entorno das lagoas. Atualmente, mais de três mil hectares de manguezais estão protegidos por unidades de conservação, informa a prefeitura. Monitoramento e fiscalização Entre as medidas em curso, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mantém cinco ecobarreiras instaladas nos principais rios que deságuam no Complexo Lagunar de Jacarepaguá. Segundo o órgão, as estruturas flutuantes impediram que cerca de 3 mil toneladas de resíduos sólidos chegassem às lagoas apenas no primeiro semestre de 2026. Já a Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio (Agenersa) destaca em nota, que acompanha e fiscaliza o cumprimento das metas de investimento e de ampliação da infraestrutura de coleta, transporte e tratamento de esgoto previstas nos contratos de concessão do saneamento das bacias que alimentam o Complexo Lagunar da Barra e Jacarepaguá. De acordo com a agência, embora não tenha competência sobre a gestão ambiental dos manguezais ou o licenciamento de intervenções, sua atuação busca assegurar o cumprimento das metas de saneamento e reduzir, de forma progressiva, o despejo de esgoto nos corpos hídricos da região Para quem vive da relação direta com as lagoas, porém, os sinais de recuperação ainda são poucos diante da grande perda ambiental registrada por décadas. Um pescador que preferiu não se identificar afirma que a transformação da paisagem foi acompanhada pela redução da vida no mangue: — Nas últimas décadas perdemos muito dos nossos manguezais e uma quantidade significativa dos peixes. Há pontos onde o chão parecia dançar, de tanto caranguejo, que hoje estão sem vida. Entre os sons dos pássaros que restam e o cheiro característico do mangue, dá para perceber a sujeira e a poluição também.
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