Os governos cobram impostos por lei; alguns cobram pela confusão. Tributos têm regras conhecidas, datas definidas e porcentuais explícitos. Já a incerteza econômica funciona como um imposto invisível. PUBLICIDADECada anúncio contraditório, cada mudança repentina de rumo e cada decisão improvisada elevam o custo de investir, contratar e produzir. A diferença é que essa cobrança não aparece em nenhuma arrecadação oficial. Ela surge na forma de crescimento perdido.Segundo estimativa do Yale Budget Lab, o tarifaço de 2025, somadas às retaliações externas, reduziram o crescimento real dos Estados Unidos em 0,5 ponto porcentual em 2025, e 0,4 ponto em 2026.A economia brasileira melhorou justamente quando a imprevisibilidade foi reduzida Foto: Marcello Casal Jr/Agência BrasilEsse mesmo Centro de Pesquisas estimou em 490 mil os empregos a menos até o fim de 2025 e o PIB de longo prazo 0,3% menor, equivalente a cerca de US$ 90 bilhões anuais, em dólares de 2024. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) relatou no Beige Book de abril de 2026 que a incerteza passou a complicar decisões de contratação, preços e investimento de capital, levando muitas empresas a uma postura de “esperar para ver”.PublicidadeA maior economia do mundo começa a se comportar como emergente: política personalista, regra instável, pressão sobre instituições e custo de risco crescente. Por outro lado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estimou que uma redução ampla das tarifas americanas, combinada com menor incerteza, poderia elevar o crescimento global em 0,6 ponto porcentual. Interessante notar que o Brasil passou décadas sendo tratado como exemplo de instabilidade econômica. Agora parte do mundo desenvolvido começa a experimentar algo parecido. Mas, diferentemente, o Brasil não pratica a imprevisibilidade da mesma forma que nos EUA.Lá a instabilidade vem muito da figura presidencial, de anúncios improvisados, recuos rápidos, conflitos institucionais e política econômica errática. Aqui nos trópicos, historicamente a incerteza foi mais estrutural, vinda da nossa fragilidade fiscal, inflação, sistema tributário péssimo, juros elevados, insegurança regulatória. O Brasil aprendeu a sobreviver em ambiente instável. Apesar das incertezas, as empresas brasileiras criaram resiliência, juros altos fazem parte do planejamento, contratos já embutem risco, empresários convivem com volatilidade cambial, famílias convivem historicamente com inflação. Nós melhoramos justamente quando a imprevisibilidade foi reduzida. Como quando implantamos o Plano Real, estabelecemos metas de inflação, tratamos da responsabilidade fiscal, demos autonomia ao Banco Central. O Brasil nunca foi especialista em estabilidade. Talvez tenha sido apenas pioneiro em sobreviver à instabilidade. Publicidade