Cocaína que sai do Brasil vai quase toda para a Europa, e uso da narrativa da guerra contra as drogas para justificar o rótulo de terrorista para as facções denota fim mais geopolítico do que policial na medida Imagem das Forças Armadas dos EUA mostram lancha de supostos traficantes alvejada pelos militares no Caribe — Foto: Reprodução/ X/ SouthCom RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 16:35 Facções Brasileiras PCC e CV Focam Tráfico na Europa, Não nos EUA O artigo revela que as facções PCC e CV, rotuladas como terroristas pelos EUA, têm pouca influência no tráfico de drogas para o país, focando mais na Europa. Dados indicam que a cocaína exportada do Brasil vai principalmente para portos europeus. Especialistas criticam a classificação dos EUA, alegando motivações geopolíticas. A reclassificação é vista como uma estratégia para consolidar influência regional. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Departamento de Estado dos Estados Unidos usou o discurso de guerra contra as drogas para justificar a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como terroristas, mas o crime organizado brasileiro quase não exporta entorpecentes para território americano, mostram dados de apreensões obtidos pelo GLOBO. "O governo Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação", afirmou ontem comunicado do secretário de Estado, Marco Rúbio, "mantendo as drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo o fluxo de receita que financia narcoterroristas violentos." Segundo especialistas consultados pelo GLOBO, porém, apesar de a facção paulista ser um grande ator no tráfico de cocaína para a Europa, a operação internacional do grupo carioca ainda é pequena, e nenhum dos dois grupos tem presença perceptível nos EUA. Entre 2016 e 2025, segundo dados da Receita Federal, a alfândega de Santos registrou 345 apreensões de cocaína, com rotas para 68 portos em 50 países, majoritariamente na Europa. Os principais destinos/transbordos são Bélgica (Antuérpia), Espanha (Valência) e Holanda (Roterdã). Não há registros de apreensões com destino aos Estados Unidos. — É uma questão geográfica e de logística. É muito complicado você importar a droga para o Brasil, do Peru, da Bolívia, da Colômbia, para depois exportar de volta para os Estados Unidos — afirma Gabriel Patriarca, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). Patriarca destaca que, por outro lado, são recorrentes as apreensões de armas com origem nos Estados Unidos chegando ao Porto de Santos. Entre 2016 e 2024, a PF registrou pelo menos 26 apreensões de armas ali. A operação Outlet, deflagrada pela Receita Federal nos portos de Santos e de Suape (PE), em 2021, desvendou uma dessas quadrilhas. A organização criminosa usava o esquema de bagagens desacompanhadas para burlar a fiscalização e introduzir armas, munições e mercadorias de alto valor no Brasil de forma ilegal. Priscila Villela, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) especializada em segurança, afirma que isso denota que a reclassificação dos grupos criminosos agora se trata mais de consolidar influência regional. — Os Estados Unidos não são um destino significativo e importante das drogas movidas por essas organizações brasileiras — afirma. — Mas a reclassificação possibilita aos Estados Unidos mobilizar um conjunto de ferramentas políticas, jurídicas, discursivas, que foram sendo construídas ao longo de 20 anos de guerra ao terror, e que passa a ser agora mobilizado para a América Latina. Expansão amazônica Essa movimentação, porém, passa menos pelos recrutas do CV no Morro do Alemão e pelos infiltrados do PCC Porto de Santos do que pela presença dessas facções numa região mais sensível: a Amazônia. Segundo Gabriel Funari, pesquisador da Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), alguns traficantes ligados às facções estavam até recentemente usando o Caribe como rota de saída para levar droga para a Europa. — Uma desses caminhos, a Rota do Solimões, faz o escoamento por Belém e Barcarena e já era bem conhecida, mas a gente tem identificado uma porta de saída cada vez maior pelo Amapá, no Porto de Santana — diz o pesquisador. Isso está ocorrendo, em parte, porque o domínio do CV em Belém empurrou o PCC para outras saídas Amazônicas. — A gente está vendo o Comando Vermelho assumindo um papel cada vez mais relevante no tráfico internacional, o que é uma novidade, porque até os últimos anos o CV realmente só se preocupava com o varejo — diz. — E nós vemos a atuação deles principalmente pela Amazônia. O litoral do Amapá é a faixa de terra brasileira mais próxima da região do Caribe onde as forças armadas dos EUA realizaram ataques mortais contra embarcações apontadas pelo país como veículos de traficantes colombianos e venezuelanos desde 2025. Essa ofensiva acabou desviando o tráfico para outras rotas agora, mas não será surpresa se uma embarcação brasileira sofrer um ataque no futuro, mesmo que esteja se dirigindo à Europa e não aos EUA. — Existe um impulso muito grande desse governo americano para mostrar resultados em termos de apreensões e drogas e até mesmo em mortes provocadas nesses ataques — diz Funari. Villela afirma que, além disso, os ataques a embarcações no Caribe ajudaram a construir a narrativa que os EUA usaram para justificar o sequestro do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. — Mas a acusação de que o Maduro faria parte desses cartéis e que estaria envolvido no tráfico não tem nem pé nem cabeça — diz. — Os interesses eram políticos e geopolítico e tinham a ver com o acesso ao controle sobre fontes de petróleo. Reunião em Boston Um dado curioso do tráfico de drogas é o de apreensão de drogas no Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos. Dali sairiam algumas poucas das cargas de drogas que passariam pelos EUA se não tivessem sido apreendidas. Houve mais casos de drogas (sobretudo metanfeamina) vindas de aeroportos americanos, porém, do que seguindo para lá. Apesar do volume de tráfico do Brasil para os EUA ser pequeno e não ter envolvimento profundo de facções, porém, autoridades dizem que há, pelo menos, um desejo do PCC em atuar na América do Norte, e o grupo já prospecta negócios lá. — Não posso dizer que (a reclassificação) é de natureza puramente política, porque o PCC também está agindo nos Estados Unidos já — afirma o promotor Lincoln Gakiya, que há mais de duas décadas investiga o PCC. — Eu mesmo, em março, estive em Boston reunido com policiais americanos, do FBI e da DEA, justamente para tratar disso. A preocupação deles era a presença de criminosos do PCC já agindo no tráfico interno dentro dos Estados Unidos. Para Villela, da PUC-SP, porém, ainda que a preocupação dos EUA com o PCC e o CV seja justificável em algum nível, a reclassificação dos grupos como terroristas pouco ajuda a combater seus crimes. — A gente já tem leis referentes a crime de tráfico de drogas, leis referentes a organizações criminais, cooperação internacional e convenções internacionais — afirma. — Essa cooperação já é ativa, historicamente bem estabelecida com os Estados Unidos, que já tem uma presença cotidiana junto às polícias brasileiras. Não há uma justificativa técnica para isso.