O memorial de Auschwitz tem denunciado que várias contas no Facebook disseminam imagens do Holocausto geradas por Inteligência Artificial (IA): “Ao permitir que essas distorções surjam, circulem e ganhem visibilidade, a Meta contribui directamente para a erosão da compreensão factual da complexa história de Auschwitz”. Essa distorção está, cada vez mais, ao alcance de qualquer um: basta ter acesso a ferramentas de IA. A noção de que há muitas imagens geradas pode alimentar um “cepticismo generalizado” — ‘se há tantas imagens falsas, será que alguma é verdadeira?’ — e o passado “pode tornar-se uma forma de entretenimento ditada por interacções”, alerta Miguel Cardina, historiador e investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.O PÚBLICO identificou dezenas de páginas que partilham fotografias falsas do Holocausto. Algumas também partilham imagens de outros momentos históricos. Uma mãe despede-se do filho momentos antes de serem separados em Auschwitz, um casal dá a mão uma última vez num campo de concentração, um homem judeu faz continência perante a bandeira norte-americana depois de ser libertado. As narrativas são sempre emotivas, acompanhadas por imagens que podiam, à primeira vista, ser confundidas com fotografias reais. Mas não existem em nenhum arquivo, apenas em páginas pouco credíveis, e há sinais de que são geradas por IA.Para tornar as histórias mais dramáticas, as descrições acompanham o tom (e também têm sinais de terem sido escritas com recurso a IA). Há um motivo para esse apelo à emoção: “Estas mentiras, estes documentos, acabam por circular com mais facilidade do que documentos reais porque são beneficiados pelos algoritmos”, explica Nuno Moniz, investigador da Universidade de Notre-Dame, nos Estados Unidos, especialista em machine learning. A emoção simplifica a mensagem, não há contexto nem nuance — e os algoritmos beneficiam conteúdos superficiais.