A forma de atuação das empresas de inteligência artificial (IA) pode colocar em risco a democracia e servir de instrumento para a proliferação de notícias falsas e da polarização ao enfraquecer o jornalismo profissional, avaliam especialistas ouvidos pelo GLOBO. O tema entrou no centro do debate após o presidente e editor do jornal The New York Times, Arthur Gregg Sulzberger, afirmar, durante o 77º encontro da Associação Mundial de Editores de Notícias (WAN-Ifra), na cidade francesa de Marselha, que as companhias de tecnologia “roubam descaradamente a propriedade intelectual” dos meios de comunicação, ameaçando a sustentabilidade financeira da imprensa. — Gigantes da tecnologia exploram sites de notícias sem autorização nem remuneração. Reembalam esse conteúdo roubado como se fosse próprio, desviando audiência e receitas que, de outra forma, iriam para as organizações jornalísticas que produziram esse trabalho. E isso não acontece apenas uma vez, durante o treinamento dos modelos, mas incontáveis vezes todos os dias — afirmou Sulzberger em sua apresentação, na segunda-feira. Impacto para os cidadãos Ele destacou que essa dinâmica já levou a uma forte queda do tráfego dos sites de notícias, citando dados da consultoria Comscore, que apontam “quedas superiores a 45% nos últimos quatro anos, à medida que a corrida da IA se intensificou”. Sulzberger ressaltou ainda que, como resultado, poderá haver menos jornalistas no futuro para checar a veracidade das informações: — Um futuro em que uma fonte essencial para uma sociedade saudável e uma democracia estável, a verdade, a compreensão e a responsabilização proporcionadas pelo jornalismo original, continue secando. Marcelo Rech, presidente executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), que participa do evento, disse que Sulzberger expressou, com muita propriedade, um sentimento generalizado entre as atividades que dependem de direitos autorais e intelectuais: — Os pontos que ele enumerou são absolutamente razoáveis e, mais do que nunca, necessários. Queremos viver em um mundo de vale-tudo, em que a razão, a verdade, a pluralidade e os valores da civilização estejam subordinados ao uso de conteúdos ilegais para alimentar IAs como se não houvesse amanhã? O enfraquecimento do jornalismo, e da produção intelectual como um todo, pode nos levar a um apocalipse civilizatório e, no fundo, essa foi a mensagem sensata e necessária deixada por Sulzberger. O advogado Sydney Sanches, presidente do Conselho de Propriedade Intelectual da Federação das Câmaras de Comércio Exterior, alerta que a forma como as empresas de IA atuam cria um ambiente propício para o avanço da polarização e de teorias conspiratórias. Isso porque, explica ele, os sistemas de inteligência artificial operam sem um padrão regulatório definido ou monitoramento capaz de evitar a circulação de informações falsas, diferentemente do jornalismo, sujeito a regras. — Essa forma de atuar das empresas de IA gera problemas não só de direito de propriedade intelectual, porque estão se apropriando de conteúdos de terceiros, mas também de difusão de informações, gerando distorções justamente por conta da falta de uma curadoria profissional e responsável. Isso é gravíssimo e afeta as estruturas sociais e a forma pela qual escolhemos nossos representantes. O impacto nos países democráticos é gigantesco, e já ocorria com as redes sociais. E acrescentou: — E agora, com a IA, isso toma uma proporção maior, sobretudo porque a relação que o cidadão médio tem com essas tecnologias é de credibilidade. Ele acredita no que recebe, na imagem que vê e no que escuta. E essas informações são disponibilizadas sem nenhum tipo de controle — disse Sanches. Discutir governança Sulzberger levantou diversos questionamentos sobre o avanço das plataformas de IA, afirmando que estas poderão afetar “o futuro do jornalismo baseado em fatos e apuração direta, essencial para a saúde de nossas democracias”. Para o presidente do NYT, “a reportagem original é, frequentemente, a razão pela qual sabemos o que sabemos”. Ele disse ainda que a IA pode reproduzir informação, “mas não consegue substituir a produção original de notícias”. “Gigantes da tecnologia exploram sites de notícias sem autorização nem remuneração. Reembalam conteúdo roubado como se fosse próprio” - Arthur Gregg Sulzberger, presidente e editor do NYT, em discurso na WAN-Ifra Para André Gildin, sócio da consultoria RKKG, o discurso de Sulzberger aponta que, sem o jornalismo profissional, enfrentaremos a produção massiva de conteúdo automatizado, deepfakes e vídeos falsos. Segundo ele, é crucial para a democracia combater a escala e a velocidade da desinformação impulsionada pela agilidade da IA. — A consequência, que já estamos vivenciando, é a polarização, o descrédito da imprensa, da ciência, das instituições e uma maior dificuldade para tomar decisões coletivas com base em fatos. Precisamos discutir cada vez mais governança, segurança, transparência, rastreabilidade e, principalmente, educação e letramento digital em todas as esferas, como escolas, empresas e instituições públicas. A IA é uma ótima ferramenta de produtividade e democratização da informação, mas, sem controles adequados, também pode acelerar a desconfiança e a desinformação — pontuou Gildin. “O enfraquecimento do jornalismo, e da produção intelectual como um todo, pode nos levar a um apocalipse civilizatório” - Marcelo Rech, presidente executivo da ANJ É preciso haver regulação Esse foi outro ponto ressaltado por Sulzberger — com a enxurrada de bots na internet, é “cada vez mais difícil saber de onde algo veio, quem produziu, se é verdadeiro”: — Isso gera uma sensação crescente de que nada pode ser confiável — disse o presidente do NYT. — O resultado não é apenas que as pessoas passam a acreditar em coisas falsas. É que elas deixam de acreditar também nas coisas verdadeiras. Para Gildin, a questão é como criar um modelo que permita o desenvolvimento da IA sem destruir o ecossistema de produção de conteúdo, cultura, ciência e jornalismo: — O caminho mais inteligente é uma regulação baseada em equilíbrio, com incentivo à inovação por meio de investimento público e privado, transparência sobre o uso de conteúdos protegidos, mecanismos de licenciamento e remuneração dos direitos autorais. "A consequência, que já estamos vivenciando, é a polarização, o descrédito da imprensa, da ciência, das instituições” - André Gildin, sócio da consultoria RKKG O presidente do NYT lembrou ainda que os impactos vão além das notícias, pois as empresas de IA vêm saqueando todo o acervo de obras originais, o que “ameaça o futuro dos livros, filmes, músicas, pesquisas e inúmeras outras áreas”. — O risco prático é a facilidade e a escala com a qual o conteúdo falso poderá ser gerado por qualquer pessoa a custo baixo. O risco mais profundo e doloroso é o fato de que mesmo quando sabemos que um conteúdo é falso ou enganoso, consumi-lo tem um efeito nas pessoas. Uma vez visto um conteúdo, é impossível reverter a absorção dessa mensagem. Isso influencia inevitavelmente o sistema de valores do indivíduo — avaliou Domenico Massareto, coordenador de Inteligência Artificial da Miami Ad School. Ao concluir seu discurso, Sulzberger afirmou: — Empresas de notícias precisam se impor como a alternativa confiável a esse caos. Notícias e informações nas quais se pode confiar são hoje mais raras e necessárias que nunca. Aquelas produzidas por equipes de profissionais experientes, com o apoio de processos e padrões rigorosos.