Por mais de uma década, o ministro Gilmar Mendes figurou entre os alvos prioritários da esquerda brasileira. A entrevista que concedeu à Folha (23/5) prova que aprendeu uma das técnicas principais de seus antigos detratores: culpar o mensageiro pela mensagem.

Questionado sobre o impacto negativo do Caso Master no Fórum de Lisboa, o "Gilmarpalooza", utilizou-a uma vez: "Talvez pessoas que não queiram ir ao fórum e queiram ser simpáticas à ideologia da Folha estejam ecoando isso". Indagado sobre a crise de confiança experimentada pelo STF, utilizou-a outra vez: "Não quero isentar de responsabilidade quem tem, mas me parece que você coloca o tribunal num corredor polonês; depois a Folha faz pesquisa e revela uma frustração".

Segundo Gilmar, é (quase) tudo culpa da Imprensa Golpista. O que não é, cabe à "Faria Lima", a clássica metáfora abrangente destinada a atribuir responsabilidades a um sujeito oculto e, simultaneamente, inscrever-se na corrente política associada ao Planalto. A CVM falhou? Sim, claro. Bancos espertalhões revenderam CDBs do Master? Sim, óbvio. Mas, no discurso do ministro, a "crise sistêmica" funciona como varinha mágica que isenta o STF do dever de investigar seus próprios integrantes.