A guerra no Médio Oriente trouxe incerteza para os mercados financeiros, mas os activos tradicionalmente considerados de refúgio para momentos mais delicados, como o ouro, não se estão a comportar como sempre. A volatilidade dos preços do ouro tem sido uma realidade, após os máximos no início do ano, e há razões para isso, como a venda de ouro pela Turquia. E há receios do Banco Central Europeu (BCE) para a estabilidade futura do metal precioso, em parte devido às criptomoedas estáveis.No seu mais recente relatório de estabilidade financeira, divulgado esta semana, a autoridade bancária presidida por Christine Lagarde adianta que a indicação de venda de ouro por bancos centrais ajudou a afastar o ouro dos máximos acima dos 5000 dólares por onça. A Turquia foi um dos países que venderam ouro, no caso, para conseguir suportar o valor da lira, este ano, penalizada pela crise causada pela invasão e contra-resposta do Irão.Mas o BCE também acredita que há mais investidores de retalho, clientes tradicionais e não qualificados, mais expostos à evolução do ouro, o que traz um risco adicional.Uma análise da Generali Investments, publicada esta semana, também considerava que o metal precioso se tornara “vítima do seu próprio sucesso”: além de mencionar que vários bancos centrais tiveram de recorrer às suas reservas para suportar as moedas, a casa de investimentos lembra que no início do ano surgiu uma “significativa” onda de tomada de lucros, “particularmente nos ETF americanos”. Em causa estão os fundos de investimento transaccionáveis que evoluem consoante activos indexados, neste caso o ouro, e que após anos de lucros recorde aproveitaram para reduzir a sua exposição.A presença de mais investidores de retalho, que foi reforçada nos últimos anos, pode contribuir para estas dinâmicas de preço mais voláteis, alerta o BCE. O ouro estava, esta quinta-feira, abaixo dos 4500 dólares por onça.Ainda que várias casas de investimento apontem para a futura subida do preço do ouro, Frankfurt vê riscos de continuação desta incerteza na evolução de preços, com previsível “amplificação de movimentos nos preços” graças à “emergência de instrumentos de ouro tokenizado” (uma representação digital de ouro real) e “ao uso de activos garantidos por ouro em algumas reservas de criptomoedas estáveis” (criptoactivos digitais que evoluem associados ao valor de activos, neste caso o próprio ouro). A maior inter-conectividade e a presença de investidores do retalho são preocupações para o banco central.De qualquer forma, a autoridade bancária continua a ver o ouro a oferecer "protecção contra incerteza geopolítica e riscos soberanos no médio prazo", mas reconhecendo que serão as condições de mercado a ditar a evolução no curto prazo.O ouro é um dos exemplos dados pelo BCE para defender que “os episódios mais recentes têm sugerido que as correlações” que tradicionalmente existiam entre determinados acontecimentos e os preços dos activos tornaram-se “menos credíveis”, o que “reduz a eficácia” de estratégias de cobertura de risco. Por exemplo, o Banco de Portugal tem mantido estável a quantidade de reserva de ouro em 382,7 toneladas (que valia 45,1 mil milhões de euros no fim do ano passado), contratando derivados de cobertura (swaps) de ouro por euros e por moeda estrangeira.
Pequenos investidores contribuem para uma maior incerteza no ouro
Tendências passadas com activos de refúgio, como o ouro, não se estão a repetir, nota o Banco Central Europeu. Exposição indirecta ao metal precioso amplifica movimentos.















