A Rumo, maior operadora logística ferroviária independente do Brasil, é exemplar do estágio da internet das coisas (IoT) no país. A jornada tecnológica da empresa, que opera 14 mil km de vias com 1,4 mil locomotivas e 35 mil vagões, começou há quase uma década. Primeiro, foi preciso fortalecer a comunicação e a conectividade da malha. Depois, a adoção de uma estrutura integrando rádio, 4G e satélites para a comunicação contínua entre locomotivas, sensores de campo e o centro de controle operacional. A partir daí, expandiu o uso de IoT e de mais de 2 mil sensores para monitorar o clima, as condições das vias, situações de descarrilamento e quedas de barreira e outros parâmetros operacionais e de segurança. “O principal desafio para a expansão de IoT na ferrovia brasileira está relacionado à infraestrutura necessária para manter uma operação conectada ao longo de milhares de quilômetros. Grande parte da malha atravessa regiões remotas, sem cobertura adequada de telecomunicações e até de energia elétrica”, diz Marco Andriola, diretor de tecnologia da Rumo. Monitoramento de equipamentos e falta de infraestrutura de conectividade são justamente duas dores apontadas na pesquisa “Panorama IoT no Brasil 2026”, da Associação Brasileira de Internet das Coisas (Abinc), que ouviu empresas fornecedoras e usuárias de soluções e serviços. Quase 25% apontam para a falta de infraestrutura de conectividade, 21% para as dificuldades em atingir uma escala competitiva para as soluções, 37,5% citam problemas na estrutura e operação das ferramentas e 12,5% destacam os custos de implementação. O estudo revela ainda que o maior uso (50%) se concentra no monitoramento de equipamentos, seguido de dados e análises (25%). Além disso, mais de 67% apostam na integração entre IoT e inteligência artificial como o principal vetor de transformação do setor. E ainda: 52,8% das empresas estão em fase de desenvolvimento de soluções com IA, enquanto 35,8% já as oferecem ao mercado. “O que vemos são as dores do crescimento, mas evoluímos ano a ano”, diz Rogério Moreira, presidente da Abinc. “A renovação dos incentivos à IoT até 2030 é um passo importante ao proporcionar segurança jurídica aos investimentos e permitir a continuidade da expansão do uso da tecnologia”, diz Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis Brasil Digital, o sindicato nacional das empresas de telefonia e de serviço móvel celular e pessoal. Superados os gargalos, as perspectivas para a IoT no Brasil são otimistas e focadas na transformação da tecnologia em uma plataforma de inteligência e autonomia. Mais de 40% das empresas consultadas na pesquisa apostam em um crescimento acelerado para os próximos anos, enquanto 47,5% preveem um crescimento moderado. Os pessimistas, que preveem estagnação no futuro, são apenas 11,5%. Nos últimos cinco anos, segundo o Instituto de Pesquisa para Economia Digital, cerca de 9 milhões de novos dispositivos IoT foram ativados no Brasil como consequência da política pública. A Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais do Brasil (Brasscom) estima que, entre 2024 e 2027, a internet das coisas deve atrair R$ 4,7 bilhões em investimentos. A IoT implantada no Brasil se espalha por um leque de aplicações: rastreamento de ativos, medição de energia elétrica, água e gás, controle de iluminação pública, casa inteligente, câmeras de segurança e monitoramento industrial. Já a inteligência artificial deixou de ser apenas uma tendência para se tornar prioridade estrutural e já lidera como a principal tecnologia impulsionadora. A expectativa é que, após a fase de validação tecnológica, o setor entre em um novo ciclo de transformação de dados em decisões estratégicas e de integração total da IA aos processos. A implantação do 5G, mesmo dentro do cronograma, ainda tem efeito limitado, mas deve pautar o futuro, impulsionado pela convergência com IA, cloud e edge computing (computação de borda - modelo de arquitetura de TI que processa os dados na “borda” da rede ou mais próximo de onde as informações são geradas ou do usuário). A discussão sobre IoT no Brasil, afirmam representantes do setor, mudou de patamar. Durante muitos anos, o debate esteve concentrado em conectividade básica e custo de implementação. Hoje já se analisa como transformar conectividade em inteligência operacional em escala industrial. “O problema já não é mais provar o valor da IoT em projetos-piloto, mas integrar essas soluções à operação real das empresas, de forma contínua, segura e economicamente sustentável”, afirma Carlos Roseiro, diretor de marketing de tecnologias da informação e comunicação da Huawei Brasil. Para enfrentar um dos gargalos do setor, o déficit estimado de meio milhão de profissionais de tecnologia, a multinacional chinesa investe em iniciativas de capacitação, como a ICT Academy, que no Brasil já formou mais de 60 mil estudantes. “A IoT está efetivamente implantada no Brasil”, diz Rogério Moreira, da Abinc. “A melhora das condições econômicas, o avanço do 5G e a manutenção da política de incentivo fiscal devem impulsionar ainda amais o setor”, afirma Marcos Ferrari, da Conexis Brasil Digital. “A internet das coisas é uma tecnologia transversal e pode ser usada em qualquer indústria ou setor econômico”, observa Roseiro, da Huawei Brasil. “A visão da empresa é seguir ampliando o uso de IoT e telecomunicações como base da transformação digital da logística ferroviária”, acrescenta Marco Andriola, da Rumo.
Internet das coisas vive ‘dor do crescimento’
Avanço da IoT no Brasil ganha fôlego com incentivos fiscais e aposta na integração com IA














