Nos museus, nas excursões, na meditação, nos teatros, nos cursos online, só dá mulher Escultura hiper-realista no Grand Palais, em exposição coletiva, na FIAC de Paris em 2015 — Foto: Ruth de Aquino O motorista afegão do Uber me faz perguntas desconcertantes, ao me deixar no Moderna Museet de Estocolmo: “Por que só mulher gosta de museus? Por que vocês gostam tanto de museu? Só trago mulheres, suecas e turistas, a esse Museu de Arte Moderna e outros”. Ia responder que não, afinal homem também gosta de Arte. Mas, na belíssima exposição de fotos em preto e branco do Brassaï, vi quase só mulheres. Um ou outro homem. Os poucos héteros estavam acompanhados de sua mulher. Eram maridos. A provocação do motorista detectava um fenômeno visível. Não só na Suécia. Eu tinha vindo de Paris. No Grand Palais e no Jeu du Paume, tinha percebido que 90% do público era de mulheres. Sozinhas, com amigas ou com namoradas. Até fotografei, por achar curiosa a multidão feminina. Onde estariam os homens? Afinal, eram exposições de Hilma af Klint, Nan Goldin, Matisse, Martin Parr. Havia alguns gays, sozinhos ou casais. Mas jamais dois homens héteros. Por que eles não saem juntos para ver um filme, uma peça, uma exposição? Por que não têm amigos íntimos como nós, mulheres? É difícil, para um homem, abrir-se com outro. Essa é uma generalização. Mas é também um fato. Os estudiosos chamam de “recessão de amizades” o novo isolamento físico, estimulado pela tecnologia. Os homens tendem a concentrar o apoio e a escuta na parceira e não confiam vulnerabilidades a amigos. Mulheres mantêm vínculos com amigas de todos os tempos, amores, dores, aventuras, micos. E conversam. Como conversam. Trocam confidências. Pedem ajuda. Viajam juntas. Há um termo novo que define o encargo social e emocional das mulheres nos casais: “mankeeping”. Foi criado por uma psicóloga em Stanford. Seu primeiro livro foi “Homens sem homens”. Mulheres têm que lembrar os aniversários da família e dos amigos, cuidar da agenda social, comprar os presentes e os ingressos, planejar as viagens, festas, roupas. É exaustivo. E deve ser bem chato. Não é novidade que homens têm mais dificuldade de ficar sozinhos do que mulheres. Elas se bastam. E são maioria expressiva e ativa no ambiente digital e nas redes. Como dizia Susan Sontag, elas querem ser capazes de ficar sozinhas e achar isso revitalizante, não uma espera. Livram-se cada vez mais de relações tóxicas. Buscam ficar num quarto, em silêncio, sem ninguém pedindo nada. Já eles sempre buscam uma parceira – de preferência uma disposta a ser cuidadora, que suporte seu tédio e suas idiossincrasias. O “mankeeping” é uma queixa feminina pueril, num país como o nosso, onde um marido joga num penhasco a mulher, mãe de sua filha, e fala na maior cara de pau que seu único erro foi usar o celular e ser rastreado. Dói saber todo dia de um feminicídio, ou tentativa, com requintes de violência. Mas o que se fala aqui é de outro abismo entre homens e mulheres: o que esperam da vida, também ao envelhecer. Nas redações de jornais, cresci rodeada de homens. Fumando. Nos congressos, era um mar de ternos e gravatas. Com promoções para editora-chefe e diretora de redação, a disparidade numérica aumentou. Eu me incomodava muito com a ausência de interlocução feminina nos altos cargos executivos. Felizmente, isso mudou, não tanto quanto o desejado. Na vida cultural, vemos o inverso. Nos teatros, nas excursões, na meditação, nos cursos online e nos museus, há um oceano de mulheres. Até mesmo as casadas, que não conseguem levar a lugar nenhum os maridos. Eles estão esparramados nos sofás ou nos bares, vendo futebol, bebendo, alguns enrijecendo os músculos nas academias ou vendo sei lá o que no computador. Minha sensação, quando viajo, é de estar num Planeta Mulher. Sinto orgulho de pertencer a essa ala. Mas não é um cenário reconfortante. É tão estranho que até o motorista afegão percebeu.