Paris está na vanguarda das transformações urbanas. A cidade não é só “inteligente”, termo que deixou de ser utilizado pelas autoridades locais; passou a se projetar como “bioclimática” e “resiliente”. O conceito foi ampliado para adaptar a capital francesa às mudanças provocadas pelo aquecimento global e passou a incluir aspectos sociais e de bem-estar. O Plano Local de Urbanismo Bioclimático de Paris, que entrou em vigor no final de 2024 - pilotado na época pelo atual prefeito, Émmanuel Grégoire -, visa tornar a cidade mais verde (mínimo de 10 m2 por habitante) e atingir a neutralidade em carbono até 2050. A meta também é torná-la mais resiliente, adaptada para suportar ondas de calor no verão. São inúmeras medidas, que vão da redução da impermeabilidade dos solos à proibição de construções que usem apenas cimento, além de mais serviços nos bairros como centros de saúde, espaços culturais e ginásios para reforçar o conceito de “cidade de 15 minutos”, onde tudo está próximo dos moradores. A regulamentação prevê ainda ampliar o acesso a moradias sociais, diversidade dos comércios de bairro e melhorar a qualidade de vida, com mais espaços para caminhar. “Esse plano de Paris é uma ação muito importante”, diz o urbanista Carlos Moreno, professor da universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne que criou o conceito de “cidade de 15 minutos”. Segundo ele, a prefeitura tem um engajamento pelo bem-estar comum. Moreno cita como exemplo a abertura dos pátios das escolas, fora do horário de aulas, para lazer, o que na prática gerou inúmeros novos “miniparques”, e a agência Paris Commerce, que apoia a criação de comércios de bairro com aluguéis subsidiados. “É uma ferramenta de revitalização da cidade”, ressalta o especialista. Uma das transformações mais visíveis está ligada à mobilidade urbana. Há duas décadas a prefeitura faz ações para diminuir o número de carros e privilegiar meios de transporte mais limpos - Paris monitora a poluição em tempo real. A cidade foi a primeira no mundo a lançar um sistema público de aluguel de bicicletas, o Vélib, em 2007. Hoje, são mais de 1,5 mil km de ciclovias, por onde são feitos cerca de 50 milhões de deslocamentos anuais, sete vezes o registrado em 2018. Paris conquistou o quinto lugar mundial como cidade adaptada para bicicletas no ranking da consultoria Copenhagenize, especializada no design urbano. Hoje, só um terço dos parisienses possui carro, contra 45% no começo dos anos 2000. No período, as vagas de estacionamento nas ruas caíram pela metade, para 119 mil. Capital francesa tem mais de 1,5 mil km de ciclovias e cortou pela metade o número de vagas de estacionamento Um parisiense que tiver deixado a cidade na última década e retornar agora verá que a circulação na capital mudou bastante. Eixos centrais foram fechados para os carros, apesar dos intensos protestos na época. Na movimentada rue de Rivoli hoje só circulam ciclistas e, em uma faixa exclusiva, ônibus, táxis e veículos autorizados, alteração criada na pandemia de covid-19 que foi tornada perene. A mudança mais emblemática foi a transformação de parte das margens do rio Sena, que eram vias expressas para veículos, em área permanente para pedestres, ciclistas e lazer. É o chamado Parc Rives de Seine, com 4,5 km de extensão e bastante utilizado para quem vai e volta do trabalho de bicicleta. Mais de 300 vias nas imediações de escolas também viraram áreas para pedestres e verdes. O plano para ampliar os espaços para pedestres na capital, parte do projeto Paris Respira, tem investimentos previstos de € 300 milhões até 2030. Ao anunciar neste mês suas estratégias para a cidade, o recém-eleito prefeito Grégoire prometeu criar 80 “núcleos de bairro” para dar prioridade ao pedestre e destacou o objetivo de “acelerar” a transformação das margens do Sena em um espaço contínuo de 25 km para caminhar. Outras cidades europeias, como Barcelona, Amsterdã e Copenhague, seguem a tendência de integrar clima e urbanismo. Para lutar contra o risco de enchentes, a capital dinamarquesa vem se transformando em uma “cidade esponja”, com calçadas que podem absorver água sendo testadas e parques que podem virar reservatórios temporários.