A arquitetura conservada identifica o caráter de uma cidade. Mas os cariocas vivem febre de demolições As fachadas sóbrias e os telhados de zinco e ardósia de Paris levam a assinatura de Haussmann — Foto: Reprodução Se existe algo que me conforta de cara quando venho a Paris, é a arquitetura. O segredo é a harmonia e a preservação. Não dos monumentos. As construções de pedra lavrada com mais de 100 anos, detalhes ornamentados, molduras nas janelas, telhados cinzentos de zinco e ardósia com chaminés, me fazem crer na humanidade. Na valorização do que identifica uma cidade. A arquitetura homogênea e sóbria também me leva a crer na sensibilidade dos prefeitos, a começar pelo Barão Haussmann no século XIX – e todos os que, muito depois, aprovaram leis rígidas de proteção ao patrimônio. Em remodelações de prédios condenados, é comum a obra só afetar o interior, com a fachada original conservada. Venho a Paris há meio século. Morei aqui, a trabalho. Não me canso de registrar os telhados (não “rooftops”, please), em todas as luzes do dia. Nessa viagem, estou numa posição privilegiada, na altura das chaminés de argila laranja. No sexto andar. Aluguei um sótão. É uma “chambre de bonne” (ex-quarto de empregada) modernizada, com seis janelas e sacadas para uma rua calma. Sim, é romântico. Entendo quem prefira arquiteturas arrojadas e modernas, cada prédio com uma assinatura visual. Mas, como dizia Tom Jobim, Nova Iorque é uma cidade para conhecer de maca. Deitado, olhando para cima. Prefiro, para viver, a dimensão humana de Paris e Londres, onde somos acolhidos por habitações que permitem ver o céu o tempo todo. Dizem que europeu é avesso a prédios altos. Apenas sete dos mil edifícios mais altos do mundo ficam na União Europeia. Claro que há muitos arranha-céus em bairros modernos, criados fora dos centros antigos. La Défense em Paris. The City, Canary Wharf em Londres. Cuatro Torres em Madri. Parque das Nações em Lisboa. Mas não é uma questão só de gosto. É lei. Lei que pega. Lei de planejamento urbano que é respeitada. Quando não se respeita, todo mundo cai em cima. Ficou conhecida como “bruxelização” – por ter acontecido em Bruxelas – a inserção sem controle de edifícios modernos e altos em bairros antigos, desprezando prédios históricos. Poderia ser chamado de “brasilização” também. Seria impossível em Paris. Aqui, é odiada a Tour Montparnasse. Um espigão de aço com 59 andares e 210 metros de altura, 7.200 janelas pretas foscas (um horror). Quatro anos depois de sua construção, Paris proibiu prédios com mais de seis andares. Ela fere tanto o horizonte da cidade que foi apelidada de “a cicatriz”. Só é superada em altura, na Paris intramuros, pela Torre Eiffel. Agora, sofrerá gigantesca reforma. Eu sei. Não dá para comparar Rio e Paris. Duas realidades urbanas, históricas e sociais quase opostas. Mas, se esquecermos um instante as favelas e olharmos apenas nossos bairros formais que sobrevivem, é possível questionar o caos arquitetônico carioca que produziu prédios horrendos e pretensiosos. Não existe padrão, nenhuma preocupação em se preservar nada, a começar pelo caráter dos bairros. A cara se desfigura, como num lifting mal feito. Em nome do lucro máximo. Sinto saudade antecipada quando caminho por ruas no Rio – falo da rica Zona Sul – e penso que aquelas casas e predinhos antigos, déco ou nouveau, em breve não estarão mais ali. Serão substituídos por prédios altos, cada um com um estilo cafona diferente. Prédios que devassarão outros apartamentos e outras vidas, esquecerão o recuo da frente, o recuo lateral, fecharão o corredor de ventilação, provocarão mais engarrafamentos e poluição. Não sei se a atual epidemia de demolições em Botafogo, Ipanema e Gávea continuará no mesmo ritmo. Mas o Rio já foi tristemente descaracterizado. E ninguém, a não ser os moradores locais, parece dar muita bola pra isso.