Representação que pedia busca e apreensão contra governador do Rio só foi autorizada pelo STF dois meses depois, quando ele já havia deixado o cargo O ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL) e o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques — Foto: Fabiano Rocha/O Globo e Alejandro Zambrana/Secom/TSE A autorização para a operação contra Cláudio Castro (PL) realizada na última terça-feira (26) no âmbito do caso Master foi solicitada pela Polícia Federal (PF) ao Supremo Tribunal Federal (STF) há mais de dois meses, quando ele ainda estava à frente do governo do Rio. O pedido foi formalizado em 11 de março, um dia após o ministro Kassio Nunes Marques pedir vista no julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que poderia cassar o mandato de Castro. Nesse intervalo, antes da operação ligada ao Banco Master, Castro foi alvo de outro mandado de busca e apreensão da PF no último dia 15. As diligências, porém, tinham origem na investigação do esquema bilionário de fraudes tributárias do Grupo Refit. A decisão ocorreu dentro de outra ação, a ADPF das Favelas, relatada pelo ministro Alexandre de Moraes. Além de Castro, a representação sigilosa da PF também já mirava os outro sete alvos da oitava fase da Operação Compliance Zero, todos ligados a um esquema de propina para que o Rioprevidência, fundo de pensão do estado, aportasse quase R$ 3,7 bilhões no banco de Daniel Vorcaro. Naquele momento, a posição de Kassio Nunes Marques era aguardada com apreensão tanto por aliados de Castro na política e no Judiciário quanto por colegas de plenário que defendiam a cassação do então do governador. Nos círculos mais próximos a Cláudio Castro, vigorava a expectativa – quase uma certeza – de que o ministro pediria vista e seguraria os autos pelo prazo máximo de 60 dias. Nesse caso, em 10 de maio, quando Castro já teria renunciado para se desincompatibilizar do cargo de governador e se candidatar ao Senado Federal. Contrariando essa previsão, porém, Nunes Marques acabou devolvendo o processo 14 dias depois, e a presidente do TSE, Cármen Lúcia, marcou uma sessão extraordinária para o dia seguinte, que acabaria selando a condenação de Castro. Entre um momento e outro, no dia seguinte ao pedido de vista, aportou no gabinete de André Mendonça no STF a representação de quase 430 páginas que destrincha em minuciosos detalhes a relação pessoal e íntima entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro, incluindo desde o pagamento de um jantar de R$ 66 mil em Nova York até uma degustação de whisky ao custo de US$ 1 milhão (R$ 5,13 milhões na cotação da época) para o então governador e outros nove convidados na cidade americana, passando por churrascos, camarotes e outras benesses. Tudo isso bancado pelo dono do Master, enquanto o Rioprevidência enterrava bilhões de reais em fundos e letras financeiras sem cobertura do Fundo de Garantias de Crédito (FGC) com o aval de Castro e aliados que ele nomeou no comando da entidade. A representação enviada ao Supremo também se deu exatamente uma semana após a segunda prisão de Vorcaro pela PF. Na ocasião, o banqueiro estava na Penitenciária Federal de Brasília, antes de sinalizar interesse em firmar uma delação premiada e ser transferido para a Superintendência da Polícia Federal no DF. Mas, como publicamos no blog à época, Cármen Lúcia articulou nos bastidores uma estratégia para garantir que o julgamento de Castro fosse concluído antes do prazo limite de desincompatiblização, em 4 de abril. A presidente do TSE convenceu Nunes Marques a devolver o pedido de vista antes do prazo e ainda marcou uma inusual sessão extraordinária no dia seguinte, quarta-feira, quando não costuma haver atividade plenária na Corte Eleitoral. Antevendo um placar desfavorável, Castro sentiu o golpe e renunciou na véspera do julgamento, no dia 23 de março. O temor se confirmou, e o TSE condenou o agora ex-governador a oito anos de inelegibilidade por abuso de poder político e econômico, mas a maioria dos ministros considerou a cassação prejudicada porque ele já havia deixado o cargo. Dois meses Na esfera criminal, a representação da Polícia Federal ainda esperaria dois meses até que o relator do caso Master autorizasse a operação, àquela altura já na oitava fase da Compliance Zero. Procurada para comentar o pagamento de despesas de luxo e a troca de mensagens pessoais entre Vorcaro e Castro, a defesa do ex-governador não retornou o contato. O espaço segue aberto.
PF pediu operação um dia após Kassio pedir vista de julgamento de Cláudio Castro no TSE
Representação que pedia busca e apreensão contra governador do Rio só foi autorizada pelo STF dois meses depois, quando ele já havia deixado o cargo
















