Num artigo publicado a 30 de Abril, o PÚBLICO revelava que metade dos bebés nascidos na Grande Lisboa em 2025 são filhos de mães estrangeiras. A meio do artigo lê-se uma frase que deveria dar que pensar: muitas destas mulheres não falam sequer inglês, "obrigando as equipas a recorrer aos tradutores da Internet". Leia-se: numa sala de partos de Lisboa, o elo entre uma mulher grávida e o médico que a assiste é, muitas vezes, o Google Tradutor. Não é uma solução de emergência. É a norma. E não só em Portugal.Para perceber o que está em causa, convidamos os leitores a considerar uma frase simples em inglês: "She poured the water from the bottle into the cup until it was empty." O que ficou vazio: a garrafa ou o copo? Qualquer humano com inglês básico responderia: a garrafa. A lógica do mundo real é inequívoca. O Google Tradutor, porém, traduz a frase como "Ela despejou a água da garrafa no copo até esvaziá-lo" — porque o algoritmo calcula a palavra mais provável com base em padrões estatísticos, não porque compreende o significado. O pronome "it" fica associado ao substantivo mais próximo, e a garrafa torna-se o copo.Este erro parece trivial. Não é. Em 2023, um turista foi algemado e interrogado como suspeito de terrorismo em Portugal porque o tradutor automático confundiu "romã" com "granada". Nesse caso, havia margem para corrigir. Numa sala de partos, pode não haver. A diferença entre "a dor aumenta quando respiro" e "a dor diminui quando respiro" pode determinar um diagnóstico, uma intervenção, uma vida. E, quando a língua em causa é sub-representada nos dados de treino, a margem de erro aumenta ainda mais.