Imigrantes estão tendo bebês em condições precárias e sem supervisão médica depois que autoridades dominicanas começaram a enviar agentes para deter imigrantes irregulares em hospitais Mulher haitiana de 33 anos grávida em casa, na República Dominicana — Foto: Ana María Arévalo Gosen/New York Times RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/05/2026 - 18:09 Imigrantes Haitianas na República Dominicana Sofrem com Partos Arriscados Na República Dominicana, imigrantes haitianas enfrentam riscos ao dar à luz em condições precárias, temendo deportação. A repressão nos hospitais tem levado essas mulheres a evitarem atendimento médico, resultando em partos insalubres e perigosos. Desde a intensificação das deportações, partos hospitalares caíram 60%, expondo mães e bebês a complicações graves. A política de deportação é criticada por organizações de direitos humanos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Na República Dominicana, imigrantes vivem com medo de dar à luz em unidades de saúde. O motivo está na atuação de agentes de imigração dominicanos. Alocados em hospitais públicos, eles têm detido imigrantes sem documentos, que posteriormente são deportados, incluindo mães e seus recém-nascidos. A operação, em curso há mais de um ano, atingiu principalmente haitianos que fogem da catastrófica crise humanitária no Haiti. Katty Joseph, uma haitiana que vive no país, é um exemplo desse cenário. Katty, de 20 anos, chegou à República Dominicana há um ano e estava morando nos fundos de uma oficina mecânica, depois que o dono a acolheu. Foi lá que, no final de outubro, ela deu à luz. Apoiada em um cobertor no chão engordurado, ela disse que suportou o calor sufocante do Caribe com a ajuda de uma amiga. A haitiana cortou o cordão umbilical sozinha com uma lâmina de barbear, relatou, mas o bebê não chorou. Menos de 24 horas depois, ele estava morto. — Foi um momento muito difícil — disse Katty em crioulo, buscando palavras para descrever sua perda. A República Dominicana está realizando uma das maiores campanhas de deportação em massa do Hemisfério Ocidental, expulsando milhares de haitianos de volta para um país em ruínas. O esforço se estendeu aos hospitais, uma medida controversa que críticos denunciaram como desumana e reflexo de profundos sentimentos anti-haitianos na ilha. Autoridades dominicanas descrevem a repressão nos hospitais, iniciada em abril de 2025, como um passo crucial para remover haitianos que, segundo elas, estão drenando os recursos públicos do país. De acordo com os indicadores do governo, a política funcionou: as deportações aumentaram e o número de haitianos que buscam atendimento hospitalar diminuiu. Mas, ao longo do último ano, essa política levou um número crescente de mulheres haitianas a dar à luz em casa ou em outros locais sem supervisão e, muitas vezes, insalubres, segundo profissionais da saúde e grupos de defesa locais. Eles alertam que mães e bebês enfrentam riscos de vida — incluindo infecções e hemorragias — sem intervenção médica. As consequências são claras: os partos hospitalares entre mulheres haitianas caíram quase 60% nos 12 meses desde o envio dos agentes — de 32.967 em 2024 para 13.856, de acordo com as estatísticas de saúde da República Dominicana. Ao longo de vários meses, o New York Times entrevistou quase uma dúzia de mães haitianas, bem como médicos e parteiras informais que ajudam mulheres haitianas a dar à luz às escondidas. O jornal documentou a morte de um recém-nascido por complicações médicas e de uma mãe que morreu de choque séptico duas semanas após dar à luz gêmeos em casa. Dando à luz nas sombras Katty contou que o dono da oficina mecânica levou seu bebê a um pediatra quatro horas após o nascimento do menino em Puerto Plata, na costa norte da República Dominicana. O pediatra, Dr. Juan Payero, disse que os sinais vitais do bebê estavam estáveis, mas que estava preocupado porque o recém-nascido parecia estar com fome e ainda não havia chorado. O Dr. Payero afirmou que insistiu para que Katty fosse a um hospital, mas o bebê morreu algumas horas depois. A jovem haitiana contou que cavou um buraco e enterrou o corpo do bebê em uma colina perto da cidade onde morava. Uma autópsia nunca foi realizada para determinar a causa da morte, segundo ela. O bebê, sugeriu o Dr. Payero, pode ter morrido de desnutrição, falta de oxigênio, infecção causada pelas condições insalubres do parto ou tétano, devido à lâmina de barbear usada para cortar o cordão umbilical. Enfermeira haitiana treinada como parteira examina mulher grávida haitiana de 29 anos na República Dominicana — Foto: Ana María Arévalo Gosen/New York Times A crise é o mais recente ponto de tensão em décadas de conflito em Hispaniola, a ilha caribenha compartilhada pelo Haiti e pela República Dominicana. A economia dominicana há muito depende da migração haitiana para impulsionar seus setores de agricultura, construção e turismo, mas o recente aumento desencadeou uma reação negativa. Dezenas de milhares de haitianos cruzaram a fronteira terrestre de 386 quilômetros nos últimos anos, escapando do derramamento de sangue e da privação implacáveis ​​em um dos países mais instáveis ​​das Américas. O governo dominicano respondeu com uma campanha de deportação de grande alcance, apoiada por muitos dominicanos preocupados com a possibilidade de a violência das gangues haitianas se espalhar pela fronteira e de o êxodo sobrecarregar os contribuintes. O presidente Luis Abinader, aproveitando-se de uma onda de nacionalismo que impulsionou sua reeleição em 2024, impôs cotas semanais de deportação que levaram à expulsão de mais de 478.000 haitianos desde janeiro de 2025, incluindo pessoas que cruzaram a fronteira várias vezes, segundo autoridades dominicanas. O último levantamento governamental, de 2017, estimou que quase 500.000 haitianos viviam na República Dominicana, com mais 252.000 nascidos na República Dominicana, filhos de pais haitianos. O Abinader supervisionou a construção de uma cerca de 160 quilômetros na fronteira, vigiada por soldados e sensores, mas sua medida mais controversa teve como alvo locais tradicionalmente considerados santuários: os hospitais. Em abril de 2025, o governo passou a exigir que os hospitais públicos da ilha reportassem às autoridades de imigração os pacientes sem a documentação adequada, para que pudessem ser detidos e deportados após receberem atendimento. Nem mesmo o governo de Donald Trump implementou medidas semelhantes em hospitais dos EUA como parte de sua campanha de deportação. Autoridades dominicanas afirmaram que a medida era necessária para evitar a superlotação em hospitais que, segundo elas, estavam sobrecarregados por migrantes haitianos. O vice-almirante Luis Rafael Lee Ballester, diretor-geral de migração, disse desconhecer qualquer aumento no número de partos domiciliares entre mulheres haitianas. Ele enfatizou que os haitianos sem documentos só são deportados após receberem e pagarem por atendimento médico em hospitais. Segundo os protocolos atuais, as mães são detidas 72 horas após o parto normal, enquanto as que se submetem a cesarianas são detidas após sete dias. — Nos vimos obrigados a tomar uma série de medidas para a segurança nacional e para garantir a segurança de nossos cidadãos — declarou o Almirante Lee Ballester em entrevista, acrescentando que as autoridades estavam agindo com “alto grau de profissionalismo e respeito à dignidade humana”. A política, que resultou na deportação de mães que amamentam e seus bebês, foi denunciada por organizações de direitos humanos e pelas Nações Unidas. Cristiana Luis, presidente do Movimento de Mulheres Dominicanas-Haitianas, um grupo de defesa dos direitos humanos, disse: — É uma afronta à dignidade humana das mulheres. E de seus filhos e filhas. Gêmeos, órfãos ao nascer Ao longo do último ano, o medo da deportação para seu país natal, assolado por crises, impediu muitos haitianos de buscar atendimento médico. Em novembro passado, Linline Poleis, de 28 anos, deu à luz gêmeos, Duleyson e Dudleyca, em uma casa em construção onde morava sem permissão, segundo sua família. Ela se recusou a ir para um hospital por medo de ser deportada e ficou sozinha durante o parto, até que uma parteira chegou mais tarde para ajudar a cortar os cordões umbilicais, disseram seus familiares. Os gêmeos recém-nascidos Dudleyson e Dudleyca, na República Dominicana — Foto: Ana María Arévalo Gosen/New York Times Ela adoeceu rapidamente e começou a sangrar profusamente pela região pélvica, segundo familiares e vizinhos entrevistados pelo Times. Os vizinhos disseram que juntaram 4.500 pesos, ou US$ 75 (R$ 378), para levá-la a uma clínica particular, onde ela foi tratada de hipertensão. No dia seguinte, Linline desmaiou e morreu na calçada em Santo Domingo, capital do país, segundo sua família. O laudo da autópsia, realizada por autoridades dominicanas e analisada pelo NYT, constatou que ela morreu de choque séptico, septicemia e endometrite — uma infecção uterina que é uma das principais causas de morte pós-parto. Os gêmeos órfãos estão agora sob os cuidados da família do pai. Nova geração de parteiras O aumento nos partos domiciliares revitalizou uma pequena indústria de parteiras, comuns décadas atrás, mas que praticamente desapareceram com a transição da República Dominicana para um sistema de maternidade baseado em hospitais. Kenya Degraff, uma ativista comunitária de 28 anos, disse que, desde que se tornou parteira no ano passado, percorreu a ilha ajudando mais de duas dezenas de mulheres haitianas a dar à luz — sem nunca cobrar nada. — No momento, muitos haitianos aqui não têm dinheiro — disse Kenya, referindo-se aos altos custos para dar à luz em hospitais particulares a fim de evitar as autoridades de imigração. — Você vai deixar alguém morrer por causa de dinheiro? O Times visitou, no final do ano passado, a casa de outra parteira no norte do país, onde viviam seis mulheres haitianas. A parteira disse que cobrava de US$ 100 a US$ 250 (entre R$ 504 e R$ 1.260) por seus serviços, desde o simples corte do cordão umbilical até a aplicação de banhos de vapor tradicionais, que podem ajudar a acalmar as novas mães. — Os dominicanos não sabem que faço isso em casa — revelou a parteira, que pediu anonimato por medo de que as autoridades deportassem as mulheres que ela ajuda. Islan Luis, de 21 anos, estava na casa da parteira depois de dar à luz dois dias antes, pois não tinha os US$ 2.000 (R$ 10.000) que, segundo ela, custariam para dar à luz em um hospital particular. Islan disse que tinha ido tomar banho em casa e sentiu uma dor no quadril quando, de repente, entrou em trabalho de parto no banheiro. — O bebê nasceu imediatamente depois que senti a dor — contou a jovem, que seguia sentindo dores abdominais, mas ainda não tinha consultado um médico. Após 17 horas de trabalho de parto na casa da parteira, outra mulher haitiana, que pediu anonimato por medo de ser identificada e deportada, correu para um hospital público para dar à luz. O Times acompanhou a mulher e o marido até o hospital, onde disseram ter pago um suborno de US$ 250 (R$ 1.260) para evitar serem denunciados às autoridades de imigração, além dos cerca de US$ 85 (R$ 428) pelos cuidados hospitalares. Logo após o parto, ela disse que teve que dividir a cama com outra mãe haitiana e seus dois bebês. Ali perto, acrescentou ela, mães dominicanas aconchegavam seus bebês em seus próprios berços individuais.