A reforma tributária deixou de ser um tema restrito às áreas fiscal e financeira e, aos poucos, tem redefinido decisões centrais das empresas. O que começou como um esforço de interpretação de regras se transformou em uma revisão de como as organizações operam, do portfólio de produtos e serviços à malha logística, das políticas de preços à arquitetura de sistemas. Para Eric Gorescu, diretor-executivo da Accenture, a substituição de tributos sobre consumo por um modelo de IVA Dual obriga companhias a revisitar decisões construídas ao longo de décadas. Margem, competitividade e posicionamento comercial passam a depender de variáveis que se multiplicam a cada nova regulamentação, e a velocidade com que elas mudam já não cabe em processos convencionais. “A reforma transformou um tema fiscal em um desafio de dados. São milhões de variáveis que precisam ser analisadas em conjunto. Sem inteligência artificial, a conta não fecha”, afirma Gorescu. Segundo ele, o tema entrou de forma definitiva na agenda do C-level das empresas líderes. A escala do desafio exige a mesma atenção reservada a grandes programas de transformação, com o agravante de que tudo precisa acontecer sem interrupção da operação em andamento. “É como trocar a turbina do avião com ele voando”, diz. IA deixa de ser aposta e vira exigência A cada nova camada de regulamentação, cresce a dificuldade de tomar decisões que envolvem simultaneamente impactos fiscais, financeiros e comerciais, conforme aponta o executivo. Segundo ele, simular cenários, antecipar riscos e testar alternativas em tempo real exige novas capacidades. Para a Accenture, é essa demanda que reposiciona a inteligência artificial (IA) no centro da operação e da estratégia das empresas. Organizações mais avançadas enxergam agentes de IA como mais do que uma ferramenta de eficiência e já os aplicam para processar combinações tributárias, avaliar impactos em cadeia, garantir qualidade de execução e reduzir prazos de decisão e incertezas em um ambiente ainda em definição. Embora a preocupação atual esteja na adaptação às novas regras, a reforma deve funcionar como um catalisador de mudanças mais amplas. Ao revelar gargalos estruturais, ela cria pressão por modernização. Diferentemente de outros casos de uso associados à IA, a reforma provoca uma demanda objetiva, com prazo definido e consequência financeira direta. Para muitas companhias, essa pode ser a primeira vez que a tecnologia se conecta de forma tão explícita ao coração do negócio. Impacto se espalha pela cadeia Para Renata Pires, diretora-executiva da Accenture, o maior risco das empresas é continuar tratando a reforma como um projeto fiscal isolado, e não como uma mobilização mais ampla. “A prioridade está em conectar as discussões operacionais às análises estratégicas dentro da agenda dos líderes. Isso exige coordenação entre todas as áreas”, diz. Na Claro, essa leitura já orienta a forma como o tema é conduzido internamente. O CFO Roberto Catalão lidera um esforço multidisciplinar, com o apoio da Accenture. “Existe uma percepção de que esse é um tema do financeiro, mas ele envolve a empresa inteira. Minha missão é fazer todos os departamentos enxergarem essa abrangência”, afirma. A complexidade, porém, não se encerra dentro de cada organização. O ritmo de adaptação varia ao longo das cadeias produtivas. Fornecedores e demais parceiros operam em estágios distintos de maturidade, o que cria assimetrias que podem afetar custos e competitividade em cadeia. “É um jogo para o qual não adianta você se preparar sozinho. Os seus stakeholders têm que se preparar também”, diz Catalão. Tempo é mais curto do que parece Embora o modelo preveja uma transição de sete anos, o prazo real para decisões críticas é bem menor. Revisão de contratos, migração de sistemas e redesenho de operações têm ciclos longos, portanto quem esperar a regulamentação completa para agir corre o risco de não conseguir acompanhar o ritmo da mudança. De acordo com Gorescu, a maturidade da estrutura de dados é também um fator determinante. Empresas com ambientes bem-organizados conseguem reagir com mais velocidade. Já aquelas que trabalham sobre bases fragmentadas enfrentam maior dificuldade para processar as novas exigências. “Quem opera sobre estruturas frágeis vai sentir o impacto antes e com mais intensidade”, adverte. Há, ainda, segundo o executivo, uma camada de incerteza que extrapola o ambiente regulatório. Ajustes de preços desiguais, pressão inflacionária, diferentes interpretações das regras e níveis distintos de preparo entre concorrentes podem gerar distorções competitivas difíceis de prever, sobretudo nos primeiros anos da transição. A maior oportunidade de reinvenção Embora o curto prazo reserve mais complexidade, a expectativa para o futuro é um ambiente de negócios mais transparente e racional. A reforma promete simplificar cadeias tributárias historicamente opacas e dar mais clareza sobre onde estão as grandes oportunidades de investimento e retorno. De acordo com a Accenture, para chegar lá, no entanto, é preciso um período de convivência entre dois modelos, o que demanda mais do que conformidade. Para a companhia, são necessários capacidade de leitura estratégica, velocidade de resposta, domínio sobre dados e tecnologia. É esse conjunto de exigências que transforma a reforma em algo maior do que uma mudança de regras. Para as empresas, ela funciona como um teste em que quem conseguir combinar visão estratégica com execução tecnológica tende a sair fortalecido. Por outro lado, quem tratar o tema como secundário vai descobrir, no caminho, que o custo da inércia é mais alto do que o da adaptação. Nesse cenário, a Accenture posiciona-se como parceira de reinvenção, combinando estratégia, tecnologia e execução de ponta a ponta. Da simulação com IA à implementação em ambientes complexos, como SAP, passando por cibersegurança, cadeia de valor e força de trabalho. Segundo a empresa, trata-se da maior oportunidade de reinvenção dos últimos 30 anos para o Brasil. No entanto, não basta entender a mudança. É preciso ter capacidade de responder a ela em velocidade e escala. Reinvenção do modelo de negócios a partir da reforma tributária — Foto: Arte G.Lab
Reforma tributária pressiona empresas a incorporar IA a estratégias
Complexidade do novo modelo fiscal ultrapassa a capacidade de análise tradicional e força organizações a rever operações, sistemas e cadeias de valor












