Em 1505, o papa Júlio 2º encomendou ao artista Michelangelo a construção de uma sepultura monumental, incluindo vários níveis arquitetônicos e mais de 40 estátuas. Entre elas, um grupo de seis personagens, chamados Escravos, representando almas aprisionadas.

À morte do pontífice, o orçamento para a obra já tinha sido drasticamente reduzido e a partir daí a tendência só se agravou, claro. Michelangelo chamava esse projeto sua "tragédia da sepultura", pelos muitos dissabores que lhe trouxe durante décadas. Quando a construção foi, enfim, concluída na Basílica de São Pedro Acorrentado (Roma), em 1545, o monumento era apenas uma sombra do grandioso projeto original. Nenhum dos Escravos foi incluído.

Duas dessas estátuas foram terminadas, mas Michelangelo deixou as outras quatro inacabadas. Falta de tempo? Perda de interesse nas peças, devido às sucessivas alterações do projeto? Necessidade de trabalhar em encomendas com retorno financeiro mais favorável? Ou gesto deliberado do artista, consciente do poder expressivo da incompletude da obra? Não sabemos.

Mas sabemos que Michelangelo via a escultura como ato de libertação: para ele, a figura existe previamente na pedra e o escultor apenas a liberta de seu invólucro amorfo. Escreveu: "O melhor artista não possui nenhum conceito que o mármore em si não contenha já, dentro de seu excesso". À vista destas estátuas incríveis, é difícil discordar dele. Eu nunca poderei esquecer a primeira vez que vi, num velho livro escolar da minha mãe, uma foto de "Atlas", que continua sendo meu Escravo favorito, seu torso poderoso lutando para emergir do mármore ao redor onde, como negar?, ele sempre existiu desde que o tempo é tempo.