Se não estás à mesa, estás no menu.Mark CarneyOs cientistas portugueses não podem ficar calados perante a possibilidade de o partido de André Ventura chegar ao Governo.Ventura tem procurado uma proximidade simbólica ao universo político de Donald Trump e a um estilo que transforma o debate público em combate e suspeição. Isto constitui uma ameaça à comunidade científica por uma razão fundamental: o trumpismo não trata a ciência como um bem público a proteger, mas como um obstáculo a contornar sempre que a evidência contraria a narrativa do poder. O padrão é sobejamente conhecido: pressão sobre a autonomia das universidades, descredibilização de agências técnicas e um clima de intimidação de cientistas e pensadores, que torna arriscado o exercício do pensamento crítico.
Num ecossistema científico como o português, frágil e altamente dependente de financiamento público, bastariam sinais deste tipo para produzir efeitos rápidos: autocensura por medo de represálias, fuga de talento, captura de agendas e degradação da qualidade da decisão pública, que passaria a basear-se no “achismo” ideológico e não no rigor dos dados.Se fosse primeiro-ministro, o risco de Ventura favorecer uma lógica de “manual Trump” é real: neutralizar, por pressão política e social, as elites do pensamento que não alinhem. Quando se normaliza a ideia de que investigadores, professores, médicos, engenheiros ou jornalistas são “inimigos do povo” ou parte de uma “elite instalada”, abre-se a porta a uma erosão institucional lenta, mas devastadora: cortes seletivos, condicionamento de financiamentos, nomeações partidarizadas, perseguição simbólica e assédio público nas redes sociais.







