O pré-candidato à Presidência pelo Novo, Romeu Zema, deu novas demonstrações de distanciamento em relação ao presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro (PL), ao repetir que ficou "indignado" com os elos do adversário com "banqueiro bandido". Nesta terça-feira (26), o ex-governador de Minas Gerais falou a investidores durante encontro na avenida Faria Lima, em um momento de ceticismo no mercado financeiro sobre a viabilidade de Flávio, após os danos causados pela revelação de sua proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Ao longo de um evento promovido pela Genial Investimentos para um grupo de clientes, Zema buscou se apresentar como uma alternativa para derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não descartou se aliar ao presidenciável do PSD, Ronaldo Caiado, quando indagado sobre uma possível chapa unindo os dois. "Gosto dele", comentou, sobre o ex-governador de Goiás, ressalvando que as articulações para alianças partidárias só devem se afunilar perto do prazo final das convenções, em agosto. Apesar do momento de crise na campanha do PL, Zema evitou tratar o senador como nome fora da disputa e voltou a pregar união da oposição no segundo turno contra Lula. "Estou indignado, mas, no segundo turno, qualquer que seja o candidato da direita, nós vamos estar juntos contra a esquerda", disse ele, chamando de normais as divergências dentro do segmento e reiterando ter o objetivo de levar sua candidatura "até o fim". Sem "inveja" de Michelle O pré-candidato do Novo — que teve o nome especulado como um possível vice na chapa de Flávio Bolsonaro, mas irritou o entorno do senador ao chamar de "imperdoável" sua ligação com o fundador do Banco Master — fez outra provocação indireta a Flávio, quando questionado sobre a hipótese de uma eventual composição sua com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL). Zema afirmou que "tudo é possível na política", mas que o postulante do PL é Flávio, e não Michelle. "Eu não a invejo com seus enteados", acrescentou o mineiro, que no dia anterior foi atacado nas redes por Carlos Bolsonaro. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina escreveu que não conhece "sujeito mais baixo que esse" e comparou a "uma facada" a declaração de Zema de que quem vota em Flávio ajuda a reeleger Lula. Em resposta a uma pergunta da plateia, que considerou que talvez o bolsonarismo não seja mais a melhor alternativa para derrotar o PT em outubro, o ex-governador reafirmou sua avaliação de que a opção por Flávio pode ser arriscada, "já que a rejeição dele ficou maior do que a do presidente". Após o escândalo ligado ao financiamento do filme "Dark Horse", Flávio passou a ter uma rejeição de 46%, enquanto a de Lula é de 45%, na pesquisa Datafolha. Zema usou o encontro com os clientes da Genial para demarcar diferenças com Flávio sobretudo no campo moral e exaltar sua experiência administrativa por dois mandatos como governador, enquanto o filho do presidente sofre o desgaste de nunca ter ocupado cargo no Executivo. Um dos participantes observou, fora dos microfones, que um dos problemas do senador é que ele não conseguiu demonstrar "o que ele é, para além do sobrenome". "Foice" dos cortes Participantes do encontro, ouvidos sob reserva pelo Valor, relataram que o clima de desconfiança sobre Flávio permanece forte por causa de sua relação com Vorcaro. A resistência é agravada pela falta de consistência na pré-candidatura, sem propostas claras para a economia, segundo os agentes. A cobrança também se volta a Zema e outros presidenciáveis. "Estamos esperando os planos de governo", disse um dos presentes. Além das costumeiras críticas a casos de corrupção e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o pré-candidato do Novo apresentou linhas gerais de suas propostas, sinalizando a intenção de repetir iniciativas adotadas em seu período como governador. Segundo ele, o "tripé" de seu programa de governo se baseia em um "choque ético e moral que o Brasil precisa, um choque fiscal na gastança do Lula e um choque na segurança pública". "Quero cortar em todas as frentes", disse, ao apontar a "ineficiência no setor público" como um dos ralos do orçamento. "Cortamos quase 50 mil cargos em Minas. Não tenho conhecimento de outro enxugamento dessa magnitude no Brasil. Dá pra tirar muito gasto, sim", discursou. "É mato com cinco metros de altura. Qualquer foice cega dá conta do trabalho. Às vezes nem precisa de foice, com a mão você vai arrancando. É um manancial para você poder atuar." Zema afirmou ainda que "gostaria de ir além" do que representou o teto de gastos e declarou que, se eleito, não haverá ganho real no salário mínimo e aposentadorias, apenas a recomposição da inflação. De acordo com ele, um dos caminhos para sanar o déficit fiscal é "avançar em arrecadação sem aumentar tributação", atraindo investimentos e dinamizando a economia. Confrontado sobre sua promessa de que a taxa de juros cairá pela metade no intervalo de um ano, caso o governo adote uma política de ajuste fiscal, Zema disse que o efeito seria possível "sinalizando seriedade" ao mercado. "Quem é que não vai querer emprestar para alguém que está fazendo a lição de casa? O mercado precifica", argumentou. Em relação ao estrangulamento da Previdência, ele disse que não há outro caminho que não o de aumentar o tempo de contribuição. "A expectativa de vida continua crescendo. A população está vivendo mais, vai ter que contribuir mais", pontuou. O pré-candidato também falou na necessidade de uma reforma administrativa, mas não detalhou a proposta. "Marmanjão" e "aberração" Programas sociais como o Bolsa Família, que também estão na mira da oposição, seriam mantidos em um eventual governo Zema, de acordo com o pré-candidato, mas passariam por uma revisão. "Tem muita fraude e muita gente recebendo sem precisar", disse ele, que voltou a criticar a figura do "marmanjão" contemplado pelo auxílio mesmo em condições de trabalhar. "Estamos criando uma geração de imprestáveis no Brasil. Precisamos dar [o Bolsa Família] para quem precisa, e tem muita gente que precisa, principalmente mulheres com filhos pequenos. Agora, homem, novo, saudável?", questionou. Ele defendeu mais iniciativas de qualificação profissional e indicou que, se virar presidente, vai instituir um prêmio para quem sair do programa e migrar para um emprego formal. Zema também se posicionou a favor da privatização da Petrobras, argumentando que "o setor privado toca empresa muito melhor do que o público" e que dentro de empresas estatais acontecem "aberrações", com indicações que as transformam em "cabide de empregos" e "ferramenta da politicagem". O presidenciável disse que o governo federal até pode participar da gestão da petrolífera, mas que "não pode ter o controle" da companhia. "Porque senão vai ficar refém dos políticos. E políticos, nós sabemos, não são confiáveis. Exceto eu", emendou, para risos e aplausos da plateia. Eleição e Copa do Mundo Zema ouviu questionamentos sobre sua estagnação nas pesquisas, com variações dentro da margem de erro desde a revelação das conversas de Flávio com Vorcaro. Ele atribuiu a situação ao baixo desconhecimento e disse que vai "rodar todo o Brasil" para se projetar. "O brasileiro neste momento não está sintonizado em eleição, nem na Copa do Mundo ele está", disse. Na avaliação do pré-candidato, a decisão do eleitor vai ocorrer na reta final, o que ainda lhe daria tempo para subir nos levantamentos de intenção de voto. Político "envolvido com a podridão que está aí" já sai em desvantagem, afirmou ele, sem citar nomes. "Um bom capital para mim é ser ficha limpa. Nunca tive encontros com banqueiro bandido." Zema disse ainda que o "capital político" que acumulou como governador contribuiria para a sustentação política de um eventual governo seu, mas desconversou sobre como seria sua relação com o Centrão. "Lidar com esse fisiologismo é um desafio, mas está longe de ser impossível. É algo que um governo com credibilidade vai conseguir tratar com muito mais bons resultados do que esse atual governo, que não tem credibilidade nenhuma", afirmou.