Condenado a mais de 120 anos de prisão, Palermo recebeu prisão domiciliar durante um plantão judicial em abril de 2020, no início da pandemia da Covid-19. Cinco horas depois, rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu. O caso levou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a determinar a aposentadoria compulsória do desembargador Divoncir Maran. A mensagem antes do habeas corpus As investigações apontam que integrantes do gabinete do desembargador já sabiam previamente que um habeas corpus favorável ao traficante seria concedido. “Vai entrar esse habeas corpus. O chefe pediu para prover”, escreveu o então assessor Fernando Carlana a uma colega. Segundo o processo analisado pelo CNJ, a mensagem foi enviada antes mesmo de o pedido ser oficialmente protocolado no sistema do tribunal. O habeas corpus só chegou ao gabinete mais de duas horas depois do aviso do assessor. Para investigadores e conselheiros do CNJ, o conteúdo das mensagens levanta suspeitas de que o resultado da decisão já era conhecido previamente. De acordo com o processo, o próprio assessor assinou eletronicamente a decisão usando o certificado digital do desembargador Divoncir Maran. Em depoimento ao CNJ, o magistrado confirmou que autorizou o procedimento. Decisão em 40 minutos O pedido apresentado pela defesa de Gerson Palermo tinha 208 páginas e alegava que o traficante, então com 62 anos, fazia parte do grupo de risco da Covid-19 por problemas de saúde. Segundo a investigação, porém, não foram apresentados documentos médicos que comprovassem as doenças. Ainda assim, o habeas corpus foi concedido em cerca de 40 minutos — tempo considerado incompatível com a complexidade do caso. Outra mensagem obtida durante a investigação mostra uma assessora relatando a forma como a decisão foi operacionalizada. “Fiz uma gambiarra”, escreveu. Traficante condenado a 126 anos ganhou prisão domiciliar, rompeu tornozeleira e nunca mais foi encontrado — Foto: Reprodução/TV Globo Ligação com o PCC e cartéis internacionais Gerson Palermo é apontado pela Polícia Federal como um dos responsáveis por intermediar negociações entre facções brasileiras, como o PCC, e produtores de cocaína da Bolívia e da Colômbia. Segundo investigadores, ele utilizava conhecimentos na área de aviação para transportar drogas e explorar fragilidades do controle aéreo. Palermo também participou, em 2000, do sequestro de um avião comercial que transportava malotes do Banco do Brasil. A quadrilha obrigou o piloto a pousar no interior do Paraná e fugiu com cerca de R$ 5 milhões. Somadas, as condenações do traficante chegam a 126 anos de prisão. Tornozeleira rompida e fuga Poucas horas após receber autorização para cumprir pena em casa, Palermo rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu. O Tribunal de Justiça chegou a revogar a decisão no mesmo dia, mas o traficante já havia desaparecido. Até hoje, ele é considerado foragido. Punição ao desembargador Ao julgar o caso neste ano, o CNJ concluiu que houve grave violação funcional na condução do habeas corpus. “Diante da gravidade das infrações, eu reconheço que outra pena não pode ser aplicada senão a aposentadoria compulsória”, afirmou um dos conselheiros durante a sessão. Além do processo administrativo, Divoncir Maran também é investigado pela Polícia Federal, Ministério Público e Receita Federal por suspeitas de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em nota, a defesa do desembargador afirmou que ele nega qualquer irregularidade e que aguarda acesso integral às investigações para apresentar sua defesa. Desembargador Divoncir Maran. — Foto: Reprodução/TV Globo Ouça os podcasts do Fantástico O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.