O ex-governador do Rio, Cláudio Castro — Foto: Marcelo Theobald Alvo hoje de uma operação da PF num período de menos de duas semanas, Cláudio Castro deixou para trás um governo marcado por uma sucessão de escândalos, investigações e suspeitas de corrupção que se assemelham, inclusive, a roteiros que derrubaram outros ex-governadores do Rio de Janeiro. Em 16 de maio, o motivo foram suas relações suspeitas com a Refit, a maior devedora de impostos do Brasil. Hoje, a encrenca em que está metido está relacionada às investigações sobre a aplicação de quase R$ 1 bilhão do Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores públicos do Rio de Janeiro, em letras financeiras do notório Banco Master. A lista é extensa: suspeitas de cargos fantasmas na Ceperj e na Uerj, pagamentos em dinheiro vivo, acusações de abuso de poder eleitoral, investigações sobre programas de assistência social, proximidade com empresários investigados, suspeitas de favorecimento à Refit e a ligação quase bilionária entre a Rioprevidência e Banco Master, de Daniel Vorcaro. O caso mais explosivo é justamente o da Refit. A PF afirma que a gestão Castro usou a estrutura do estado para favorecer interesses do empresário Ricardo Magro, dono da refinaria de Manguinhos, alvo de investigação bilionária por fraude fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A investigação cita agentes públicos que receberiam mais de R$ 300 mil por mês para destravar processos da empresa, incluindo licenças ambientais. Entre os pontos que mais chamaram atenção dos investigadores está uma lei aprovada durante o governo Castro que permitiu o parcelamento de R$ 9,5 bilhões em dívidas da Refit com descontos de até 95% em juros e multas — apelidada nos bastidores do Rio de “Lei Ricardo Magro”. Ao mesmo tempo, há a bomba envolvendo a Rioprevidência. Embora o rombo da fundação previdenciária venha de governos anteriores, o desgaste no governo Castro ganhou dimensão explosiva quando o fundo passou a ser ligado ao colapso do Master. Motivo: a Rioprevidência aplicou quase R$ 1 bilhão em letras financeiras do banco, mesmo diante de alertas do TCE sobre os riscos da operação. A PF já deflagrou a Operação Barco de Papel, que prendeu Deivis Marcon Antunes, ex-diretor-presidente do Rioprevidência indicado por Castro, acusado de obstrução de investigações e ocultação de provas. Mas talvez o maior desgaste político de Castro até agora tenha vindo da chamada “folha secreta” da Ceperj. Segundo as investigações eleitorais, o governo teria criado uma máquina paralela de contratações com mais de 27 mil cargos temporários na Ceperj e outros 18 mil na Uerj para abastecer uma rede de cabos eleitorais na campanha de 2022. O escândalo ganhou contornos ainda mais tóxicos quando veio à tona que milhares de pagamentos eram feitos em dinheiro vivo, diretamente na boca do caixa. Foi justamente esse conjunto de suspeitas relacionadas à folha secreta que levou o caso ao TSE. Castro acabou condenado por abuso de poder político e econômico e ficou inelegível até 2030. Antes da conclusão do julgamento, renunciou ao cargo numa tentativa de evitar a cassação formal do mandato. Outro fantasma que perseguiu o ex-governador foi a investigação sobre a Fundação Leão XIII, instituição do governo do Rio de Janeiro voltada para a assistência social e o combate à pobreza extrema. Delatores acusaram Castro de receber propina em dinheiro vivo para manter contratos ligados a programas sociais voltados a populações vulneráveis — ainda no período em que era vice-governador. O caso acabou encerrado no STF por questões processuais envolvendo foro, mas nunca deixou completamente o radar político do Rio. Em 2023, em um dos desdobramentos da operação que investigou as possíveis fraudes em programas assistenciais, Vinícius Sarciá Rocha, irmão de criação de Castro, chegou a ser preso.