Embora as tarifas de 50% anunciadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, não tenham produzido o impacto inicialmente imaginado, deixaram marcas em setores exportadores que levarão tempo para serem superadas, principalmente naqueles ligados à indústria de transformação. Para José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o principal efeito das medidas anunciadas por Trump foi a ampliação da insegurança de empresas brasileiras que dependem dos Estados Unidos para vender produtos com esse perfil. “O mercado americano é o nosso mercado de manufaturados”, afirma. “Os EUA absorvem uma parcela importante de bens industriais vendidos pelo país. Por isso, qualquer alteração tarifária no mercado americano tende a ter efeito maior sobre empresas brasileiras de maior valor agregado.” Na avaliação do presidente-executivo da AEB, o impacto não foi homogêneo. Alguns segmentos foram atingidos de forma mais direta, enquanto outros sentiram os efeitos de maneira indireta, por meio da perda de competitividade, da redução de margens ou da postergação de decisões comerciais. As indústrias de aviões, autopeças e calçados estão entre as que sofreram mais. “Praticamente todos os setores de exportação de manufaturados foram afetados, uns mais e outros menos”, diz. O problema do imbróglio que se seguiu ao anúncio de Trump para diferentes países não está apenas nas tarifas em si, mas na combinação entre aumento de custos e baixa previsibilidade. Para os exportadores, a incerteza sobre novas medidas do governo americano dificulta o planejamento de médio prazo. “Como uma empresa exportadora que faz negócios com os Estados Unidos pode se planejar pelos próximos anos com Trump, se ninguém sabe direito o que esperar dele?”, diz. Esse ambiente, segundo Castro, obriga as empresas a operar com margens de segurança maiores. Em alguns casos, os exportadores reduzem preços ou passam a trabalhar com menor rentabilidade para manter contratos. A alternativa de sair dos EUA é considerada arriscada, porque o país segue sendo o maior mercado consumidor do mundo. “Você pode até bancar o prejuízo para não sair do mercado. Agora, isso é estratégico. Pagar para ver significa que você pode se prejudicar. O mercado é gigantesco, mas o prejuízo também pode ser gigantesco”, afirma. Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o tarifaço ainda afeta uma parcela expressiva das vendas brasileiras. “Cinquenta por cento das exportações brasileiras ainda estão afetadas, ou pela 122 ou pela 232 [duas regras dos EUA que mantêm tarifas sobre produtos brasileiros; a 232 atinge setores específicos, como aço e alumínio]. Então, já é um volume importante”, afirma Barral. A margem de reação direta das empresas brasileiras é limitada. Segundo Andrea Weiss, sócia do escritório Monteiro & Weiss Trade, especializado em comércio internacional, na prática, eventuais contestações, pedidos de restituição ou reembolso precisam ser conduzidos pelos parceiros comerciais americanos, administrativamente, junto à U.S. Customs and Border Protection, ou judicialmente, perante a U.S. Court of International Trade. “Com isso, empresas brasileiras que sofreram perda de competitividade ou redução de margem não conseguem, individualmente, acionar diretamente o sistema americano para recuperar valores pagos a título de tarifa”, afirma Weiss. Restaria ao Brasil o mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), que pode ser acionado nos casos em que haja indícios de violação de compromissos tarifários ou de regras como o princípio da nação mais favorecida. “Embora o sistema enfrente limitações, especialmente pela paralisação do Órgão de Apelação, ainda pode servir de base jurídica para contestações formais, painéis ou soluções alternativas, como o arranjo provisório de arbitragem”, diz. Um fator que ajudou a amortecer parte do choque, segundo a AEB, foi a estrutura do comércio bilateral. Muitas das maiores multinacionais americanas têm filiais no Brasil, e parte do fluxo comercial ocorre dentro de cadeias corporativas já estabelecidas. Esse intercâmbio entre matriz e subsidiária, explica Castro, pode mitigar parte do risco, ainda que não o elimine. Em alguns casos, empresas conseguem redistribuir custos ou reduzir lucros em uma operação para preservar a venda.