Tarifaço de Trump já não provoca medo, mas custo político será elevado para Flávio BolsonaroImpacto na economia será setorial, mas limitado, enquanto senador será acusado de prejudicar o País. Crédito: Alvaro GribelGerando resumoA indústria brasileira acelerou o envio de produtos para os Estados Unidos antes das novas sanções encaminhadas pelo presidente Donald Trump para audiência pública, marcada para 6 de julho. Máquinas, calçados, embarcações, produtos químicos e motocicletas estão entre os produtos que tiveram um salto incomum nas vendas ao mercado americano diante da perspectiva de elevação das tarifas.PUBLICIDADEEm abril, as vendas mensais de máquinas e equipamentos ao mercado americano alcançaram o maior valor em um ano e meio. Na indústria de produtos químicos, o volume de embarques atingiu um pico — o maior em 14 meses — em março.Os americanos também voltaram a comprar calçados brasileiros. O volume exportado em abril, de 843 mil pares, foi 40,5% superior ao do mesmo mês do ano passado.Tanto a indústria de calçados quanto as fábricas de máquinas e de produtos químicos têm nos Estados Unidos o destino número um de suas exportações. Nas montadoras de motos, onde os Estados Unidos só ficam atrás da Argentina, as exportações ao país cresceram, no comparativo interanual, 35% em abril.PublicidadeLeia tambémNovas tarifas de Trump repetem estratégia que pode ser considerada ilegal, diz ganhador do NobelImpacto direto do tarifaço de Trump é modesto; suas consequências, nãoTarifaço de Trump já não provoca medo, mas custo político será elevado para Flávio BolsonaroNo dia 20 de fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou as alíquotas mais altas do tarifaço de Trump com base na lei de emergência, que, no caso dos produtos brasileiros, impunha uma sobretaxa de até 50%. Ainda que a alíquota tenha sido substituída por uma tarifa global de 10%, a decisão devolveu a competitividade aos produtos do Brasil no mercado americano.No entanto, a janela para vender aos Estados Unidos sob condições isonômicas — ou seja, com as mesmas tarifas cobradas dos concorrentes internacionais — durou pouco. Isso porque as investigações sobre práticas consideradas prejudiciais a multinacionais americanas terminaram com a sugestão de aplicação de uma tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros.A sanção era aguardada pelos exportadores brasileiros, que estão correndo para antecipar os embarques aos Estados Unidos. Segundo a área de economia e comércio exterior da Abiquim, associação que representa a indústria de produtos químicos, os dados mais recentes sobre as exportações do setor aos Estados Unidos indicam um comportamento clássico de antecipação.Volume exportado em abril, de 843 mil pares, foi 40,5% superior ao do mesmo mês do ano passado Foto: Abicalçados/DivulgaçãoAs exportações de produtos químicos ao mercado americano atingiram 209,7 mil toneladas em março (crescimento de 29% no comparativo interanual), mas voltaram em abril a 144 mil toneladas, em linha com a média mensal do período pós-tarifaço. Os técnicos da Abiquim, associação dos fabricantes de máquinas e equipamentos, avaliam que a queda abrupta de abril reforça a leitura de que a antecipação inflou o volume de março.PublicidadePresidente executivo da Abimaq, José Velloso diz que vinha alertando os associados a acelerar os embarques. Diante da iminência de novas sanções, as exportações de máquinas ao mercado americano voltaram a superar os US$ 320 milhões em abril. A marca não era batida desde outubro de 2024.“Nos meus comunicados aos associados, na minha comunicação interna, eu alertei as empresas a transferir os estoques para os Estados Unidos porque as tarifas podem voltar”, comenta Velloso.Na indústria náutica, o novo tarifaço de Trump ameaça projetos que haviam sido retomados após a decisão da Suprema Corte. Com o alívio tarifário, as empresas vinham recebendo novas encomendas e projetavam uma maior parcela da produção para as exportações. Mas tudo vai depender da abertura que os produtos terão nos Estados Unidos.“Sem a barreira tarifária, nossa projeção para 2026 era de crescimento da produção destinada aos Estados Unidos, com esse mercado podendo passar de cerca de 50% para até 60% do total produzido pela empresa”, diz Allan Cechelero, diretor da Triton Yachts, que produz lanchas e iates em São José dos Pinhais, no Paraná.PublicidadePUBLICIDADESegundo Barbara Martendal, diretora de negócios da Fibrafort, a retirada das tarifas em fevereiro vinha reequilibrando a competitividade das embarcações brasileiras no mercado americano. Após o tarifaço de Trump surpreender a empresa em seus primeiros passos nos Estados Unidos, a Fibrafort, que tem em Itajaí (SC) o maior estaleiro de lanchas da América do Sul, voltava a avançar na estruturação da operação americana.Exportações antecipadas podem ser alvo de tarifas retroativasO novo tarifaço não só ameaça o retorno dos produtos brasileiros aos Estados Unidos como também pode cobrar uma conta salgada dos exportadores. Quem tentar antecipar vendas para escapar das novas sanções pode ter de pagar tarifas mais altas em caso de cobrança retroativa.O advogado Leonardo Briganti, sócio do escritório Briganti Advogados, explica que, ao contrário do Brasil, onde alterações tributárias dificilmente são aplicadas retroativamente, a Seção 301, base do novo tarifaço sobre produtos brasileiros, permite a cobrança sobre embarques antecipados.“A cobrança pode retroagir em pelo menos um ano”, diz Briganti, que assessora clientes do escritório em temas como os custos envolvidos na venda de produtos a mercados internacionais. “O exportador brasileiro está tentando mandar tudo o que pode agora para escapar de uma possível sanção. Mas ninguém sabe afirmar categoricamente se antecipar funciona”, acrescenta.Iniciado em julho do ano passado, o processo da Seção 301 está na reta final. A investigação, conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), foi concluída com a recomendação de uma tarifa punitiva de 25% sobre produtos brasileiros. Antes da adoção da nova tarifa, haverá uma audiência pública, marcada para 6 de julho.Governo Trump recomendou tarifa punitiva de 25% sobre produtos brasileiros Foto: Alex Brandon/AP PhotoPor terem respaldo jurídico amplamente consolidado na legislação americana, as sanções aplicadas via Seção 301 dificilmente serão derrubadas pela Suprema Corte. Isso contrasta com o tarifaço anterior, que foi invalidado porque os magistrados entenderam que Trump não poderia impor tarifas econômicas de grande impacto sem aval do Congresso.As negociações, abertas após a reunião na Casa Branca, em 7 de maio, entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vão continuar. No entanto, a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas nos Estados Unidos — abrindo um novo foco de atrito entre os governos — esfriou o otimismo de empresários brasileiros quanto a uma solução negociada.Sócio-diretor da PG4 Calçados, que exporta ao mercado americano sapatos masculinos produzidos em Franca, no interior de São Paulo, o empresário Giuliano Spinelli Gera conta que recebeu mais pedidos dos EUA após a derrubada do tarifaço, em fevereiro, pela Suprema Corte americana. PublicidadeEle teme, porém, que as novas sobretaxas comprometam as exportações planejadas até o começo do ano que vem. “Estou trabalhando agora na coleção que será entregue em 2027. Se o tarifaço voltar, perderemos o fim do ano e o primeiro trimestre do ano que vem.”Em meio ao vaivém das barreiras comerciais americanas, a indústria brasileira não encontrou rotas alternativas para seus produtos, segundo estudo da Funcex, centro de pesquisas sobre comércio exterior. Desde que Trump voltou à Casa Branca para o segundo mandato, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras de manufaturados caiu de 21,4% para 19,7%.À exceção da Argentina — que passou a absorver 13,8% dos manufaturados exportados pelo Brasil, ante 12,3% antes de Trump —, a participação de outros mercados nas exportações da indústria brasileira pouco mudou. Isso indica, segundo a Funcex, que os esforços para redirecionar os produtos a novos destinos têm produzido resultados tímidos.Enquanto empurra ainda mais o comércio brasileiro na direção da China — que continua absorvendo as commodities exportadas pelo Brasil —, a política comercial de Trump contribuiu para aprofundar a perda de participação dos manufaturados na pauta comercial: de 38,9% do total, em 2010, para 26,4% no ano passado.PublicidadeApós negociações com o governo brasileiro, os Estados Unidos deixaram de sobretaxar, em novembro, mais de 200 produtos, sobretudo agrícolas, como carne bovina, frutas e café. As exportações industriais, como máquinas e equipamentos, só tiveram o tarifaço retirado em fevereiro. Já as vendas de aço e alumínio seguem pagando tarifa de 50%, por estarem sujeitas a alíquotas específicas, baseadas em legislações diferentes daquela analisada pela Suprema Corte.Como as usinas americanas dependem das placas fornecidas pelo Brasil, as compras de semiacabados siderúrgicos brasileiros mostraram certa estabilidade em 2025. Mesmo diante das tarifas mais altas, tiveram queda de apenas 1,3% no volume. Neste ano, porém, essas compras já recuaram 48%. Os dados, relativos ao período de janeiro a abril, são do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.Segundo Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, o excesso de oferta de aço no mundo agrava o quadro, por aumentar a competição entre mercados e pressionar os preços. “Com o nível de ociosidade que tenho hoje, entre 35% e 36%, eu deveria exportar muito mais. Não consigo porque também sobra capacidade no resto do mundo”, observa.