Não há registro de circulação do vírus Ebola no Brasil, conforme informou ao Valor o Ministério da Saúde. O surto em curso em países da África Subsaariana, que vitimou três voluntários brasileiros da Cruz Vermelha, apresenta baixo risco de chegar ao país, já que as condições de transmissão dificultam a disseminação do vírus para outras regiões. Em entrevista ao Valor, Moacyr Silva, infectologista do Einstein Hospital Israelita, explicou que existem três fatores que reduzem as chances de o Brasil enfrentar uma crise sanitária de proporções similares aos países africanos: O Brasil não tem o vetor natural de transmissão; A doença não é endêmica no Brasil; O período de transmissão da doença é reduzido. Silva explica que o contágio do Ebola é ligado à “relação homem e natureza”, ou seja, é uma zoonose, uma vez que “a transmissão geralmente acontece de morcegos infectados, para chimpanzés, que atuam como vetor intermediário, e então para as pessoas”. O Brasil, no caso, não teria esse animal contaminado como vetor natural de transmissão. Já no caso da transmissão entre pessoas, o risco seria reduzido, uma vez que ela só acontece quando a pessoa infectada já estiver apresentando sintomas, ou seja, o vírus “não é transmitido em período de encubação”. O Brasil, segundo norma técnica da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, não possui voos diretos para a região afetada pelo surto atual de Ebola, o que reduz a circulação de pessoas e possibilidade de contaminação. “Outro ponto a ser visto é que essa é uma doença com alta taxa de mortalidade, de 40% a 90%, então o paciente normalmente morre em duas semanas, o que também reduz o tempo de transmissão”, comenta Silva. Diante do alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ativou o Plano de Contingência Nacional e intensificou a vigilância, especialmente em pessoas com histórico de viagem à República Democrática do Congo e a Uganda nos últimos dias, informou o Ministério da Saúde. A pasta disse também que o plano prevê a identificação precoce de eventuais casos suspeitos, com notificação imediata, isolamento seguro do paciente e monitoramento de contatos para reduzir o risco de transmissão. Quais países estão passando pelo surto de Ebola? O Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (CDC Africa, na sigla em inglês) informou na sexta-feira (22) que dez países africanos estão sob risco de um surto de Ebola. São eles: Sudão do Sul;Ruanda;Quênia;Zâmbia;República Centro-Africana;Tanzânia;Etiópia;Angola;Congo;Burundi. Na última sexta-feira (22), a OMS elevou o risco de Ebola para “muito alto” na República Democrática do Congo, com o país sendo o epicentro do surto da rara cepa Bundibugyo. Até a semana passada, já haviam sido confirmados 82 casos e sete mortes por Ebola no país, além de 750 casos e 177 mortes suspeitas da doença. Nesta segunda-feira (25), porém, a OMS elevou o número de mortes suspeitas para 220. A Cruz Vermelha informou no sábado (23) a morte de três voluntários brasileiros na República Democrática do Congo, em decorrência da infecção por Ebola. “Eles perderam suas vidas para o vírus Ebola enquanto lutavam bravamente na linha de frente do combate à doença”, disse a entidade em nota. Conforme orientação da OMS, o Brasil não deve adotar fechamento de fronteiras nem restrições a viagens e ao comércio, disse o Ministério da Saúde. Quais os sintomas do Ebola? Segundo o Ministério da Saúde, a transmissão do Ebola se dá por meio do contato com sangue, tecidos ou fluidos corporais de animais e indivíduos infectados, incluindo cadáveres, ou a partir do contato com superfícies e objetos contaminados. O vírus não é transmitido pelo ar. O período de incubação é de 2 a 21 dias e os pacientes só se tornam contagiosos, de acordo com a Pasta, após começarem a apresentar os seguintes sintomas: Febre; Cefaleia; Fraqueza; Diarreia; Vômitos; Dor abdominal; Inapetência; Odinofagia; Manifestações hemorrágicas. Uma eventual confirmação dos casos de Ebola é feita por exames laboratoriais específicos, nos quais são realizadas duas coletas, sendo a segunda após 48 horas da primeira. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, os testes de Ebola são analisados pelo laboratório de Referência Nacional Instituto Evandro Chagas (IEC). Qual o tratamento para o Ebola? Ainda não há um tratamento licenciado comprovado para neutralizar o vírus do Ebola, segundo o Ministério da Saúde. Os cuidados dos pacientes acontecem por meio da hidratação e tratamento sintomático. É recomendada a expansão volêmica, correção dos distúrbios hidroeletrolíticos, estabilização hemodinâmica, correção de hipoxemia e manutenção da oferta de oxigênio tecidual e tratamento de infecções bacterianas. Uma vez que a doença foi curada, a pessoa está imune ao vírus Ebola, segundo o Ministério da Saúde.