Por décadas, o real estate de alto padrão brasileiro teve um centro de gravidade claro: o eixo Rio-São Paulo concentrava os lançamentos mais sofisticados, o capital mais disposto e o comprador de referência. O Centro-Oeste figurava como mercado regional, relevante em volume agrícola, mas coadjuvante na conversa sobre desenvolvimento imobiliário de ponta. Esse arranjo começou a mudar. A leitura de executivos do setor é que a região passou a operar como um laboratório de uma nova escala de incorporação. Goiás, Distrito Federal e Mato Grosso responderam por parte relevante dos lançamentos de médio e alto padrão fora do eixo Rio-São Paulo em 2025. Em Goiânia, foram registrados oito lançamentos de médio e alto padrão apenas no primeiro semestre, segundo dados da CBIC. Três condições ajudam a explicar o movimento. A primeira é o custo da terra, inferior ao praticado no eixo Rio-São Paulo, o que viabiliza projetos de grande extensão. A segunda é a demanda crescente por segunda residência, vinda de compradores de capitais próximas, como Goiânia,, Anápolis e Brasília. A terceira é o perfil desse comprador: patrimônio consolidado e baixa dependência de crédito bancário, o que torna o segmento menos sensível à curva de juros, vantagem relevante em um cenário de Selic elevada. "O Centro-Oeste virou destino de capital porque a conta fecha de outro jeito. Você tem terra com custo competitivo, demanda de segunda residência em crescimento e um comprador que não depende de financiamento. Isso muda a equação de risco da operação." Comenta Marlo Ceni, CEO do Grupo CPR. A combinação dessas condições abriu espaço para um tipo de incorporadora que opera em escala territorial. É o caso do Grupo CPR, que estrutura sua operação em torno do conceito de incorporadora de território: projetos pensados como ecossistemas completos, nos quais desenho urbanístico, infraestrutura, paisagismo e governança são tratados como parte do produto. O grupo opera com valor geral de vendas projetado de R$1,3 bilhão para o ciclo 2026-2028. O portfólio ilustra a lógica de escala. São dois projetos territoriais em Goiás, no Lago Corumbá IV, em Abadiânia, e em Aruanã, além de uma frente complementar de cinco condomínios em formato boutique homes em São Paulo. O projeto do Lago Corumbá IV, com 3 milhões de metros quadrados, é dimensionado para comportar zonas de uso distintas dentro de um mesmo território, algo que projetos compactos do eixo tradicional não permitem. Segundo Marlo Ceni, "O que antes o mercado via em São Paulo, projetos de território com escala e governança, passa a ser exigência no Centro-Oeste. A região não é mais onde o capital chega depois. É de onde o capital tem saido. O agro tem mostrado a sua força com exigência de escolhas." Os números de mercado dão suporte à leitura. Segundo a ABRAINC, em parceria com a FIPE, o segmento de Médio e Alto Padrão cresceu 23,8% em vendas em 2024, com alta de 42% nos lançamentos. No recorte regional, levantamento da ABRAINC com a Brain apontou Brasília liderando o crescimento de vendas no Centro-Oeste entre janeiro e setembro de 2024, com alta de 44%, seguida por Cuiabá, Goiânia e Campo Grande. O alto padrão respondeu por parcela pequena, mas crescente, do total. A consolidação do Centro-Oeste como eixo de desenvolvimento imobiliário de ponta tem implicações que vão além da região. Se o modelo de incorporação em escala territorial encontrar ali um ambiente de maturação, o setor pode passar a observar o Centro-Oeste menos como mercado periférico e mais como referência de um novo padrão. Para incorporadoras como o Grupo CPR, essa transição já é a premissa do negócio.