Há políticas que chegam à escola com aparência técnica, linguagem neutra e promessas de modernização, mas nem sempre aquilo que se apresenta como simples instrumento de gestão é apenas gestão. Por vezes, é uma forma silenciosa de redefinir uma profissão.Nesse âmbito, António Teodoro tem razão quando nos alerta para o perigo de transformar professores em recursos humanos calibrados por dispositivos administrativos. A questão, porém, é ainda mais profunda, pois o problema não está apenas no ReCAP, está na naturalidade com que a linguagem da gestão vai ocupando o lugar da linguagem da educação. Primeiro muda o vocabulário, depois muda o olhar e, por fim, muda a profissão.Não se trata de rejeitar toda a organização, toda a avaliação ou toda a exigência. Uma escola pública democrática precisa de responsabilidade, critérios, transparência e desenvolvimento profissional, mas há uma diferença decisiva entre avaliar para melhorar e classificar para domesticar. Há uma diferença decisiva entre reconhecer a complexidade do trabalho docente e encaixá-la numa grelha de comportamentos esperados. Há uma diferença decisiva entre apoiar uma profissão e redesenhá-la a partir de fora.
O ReCAP surge como um referencial transversal da Administração Pública. A palavra “Referencial” parece inofensiva, pois quem poderia ser contra um referencial? Contudo, as palavras administrativas raramente são neutras. Quando um instrumento pensado para a gestão de recursos humanos entra no debate sobre o Estatuto da Carreira Docente, não entra apenas como auxílio técnico e sim como visão do mundo, e essa visão tende a ver a escola como organização, os professores como executores de objetivos, os alunos como resultados e a pedagogia como desempenho mensurável. É aqui que devemos fazer as perguntas que verdadeiramente importam: Que acontece à profissão docente quando a sua identidade passa a ser descrita por competências comportamentais genéricas? Que acontece à autonomia pedagógica quando a boa docência é traduzida em evidências padronizadas? Que acontece à liberdade intelectual quando a avaliação se aproxima de uma cultura de alinhamento? Que acontece à escola pública quando a educação deixa de ser uma relação humana, cultural e democrática para passar a ser um conjunto de comportamentos organizacionalmente desejáveis?Gert Biesta tem insistido que a educação não pode ser reduzida à produção de aprendizagens mensuráveis, porque educar envolve sempre uma pergunta sobre finalidades, sujeitos e mundo comum. A escola não existe apenas para produzir resultados, existe para introduzir cada geração numa herança cultural, para formar pensamento, para criar responsabilidade e para abrir possibilidades de presença democrática no mundo. Quando a política educativa esquece esta dimensão, a profissão docente deixa de ser uma prática intelectual e ética e aproxima-se perigosamente de uma função operacional e robotizada. Também Philippe Meirieu lembra-nos que ensinar não é aplicar procedimentos sobre indivíduos previsíveis. Ensinar é trabalhar com a resistência do outro, com a singularidade, com o inesperado, com a liberdade de quem aprende. Por isso, a docência não pode ser lida apenas a partir de comportamentos observáveis e alinhamentos organizacionais. O professor não é um técnico de ajustamento, mas sim alguém que cria condições para que outro possa aprender, pensar, errar, recomeçar e participar no mundo com maior liberdade.















