A luz brilhante que torna quase irreais as florestas de algas a ondular e os peixes que passam pela câmara como dardos com traços de amarelo impressionam. “As águas no Gorringe são tão cristalinas que chegámos a ver as grandes florestas de laminárias [algas] a mais de 60 a 70 metros de profundidade. Junto a Portugal continental crescem até aos 15, 20 metros, no máximo”, conta Nuno Sá. Fotógrafo e videógrafo submarino premiado, é ele o realizador do documentário Gorringe, o Gigante do Atlântico, que a SIC exibe neste domingo, às 12h.Muitos portugueses podem ter ouvido falar do banco de Gorringe porque foi apontado como uma das possíveis origens do terramoto (e tsunami) de 1755 que destruiu Lisboa e grande parte da costa portuguesa. Mas continua a ser mais ou menos segredo que esta é a montanha mais alta da Europa, só que está debaixo do mar, e é uma arca do tesouro.O documentário Gorringe, o Gigante do Atlântico resulta dos trabalhos feitos durante a missão científica de Setembro de 2024, conduzida pelo Estado português e pela Fundação Oceano Azul, bem como por mais algumas instituições internacionais. E o que mostra é um cenário único, a cerca de 222 quilómetros para sudoeste do cabo de São Vicente, que provou ser uma caixinha de surpresas.Vemos golfinhos, imagens impressionantes do esguicho a grande altura de uma baleia, e multidões de lírios, peixes que não gostam muito de ser pescados, mas que foram uma companhia constante dos mergulhadores. E florestas de algas que lembram cabelos de sereia.Tapetes de tremelgasO maior mistério é ter-se descoberto ali uma aglomeração de tremelgas, ou raias eléctricas — ficam umas em cima das outras, como uma manta de retalhos, poisadas no fundo. Levou algum tempo até os cientistas perceberem algo ainda mais surpreendente: eram todas fêmeas, e estavam todas grávidas. Tinha-se descoberto um berçário de tremelgas, como nunca tinha sido descrito em lado algum no mundo.“Parecem fazer viagens bastante longas para chegar a este sítio específico no meio do Oceano Atlântico para se reproduzirem”, diz Nuno Sá. “Na minha vida inteira se calhar vi menos de dez tremelgas em mergulhos na costa continental portuguesa. E ali víamos centenas por mergulho. E estavam sempre amontoadas umas em cima das outras”, relata.Porquê, não se sabe ainda. “Pode ser por uma questão de regulação da temperatura. Ou talvez tenha a ver com as suas técnicas de protecção: elas conseguem emitir descargas eléctricas muito fortes. E estando ali, todas deitadas em cima umas das outras... Deve ser pouco apelativo para qualquer predador aproximar-se de um grupo de raias eléctricas”, sugere o fotógrafo submarino.O facto de ali existir uma maternidade de tremelgas ajuda a explicar por que é que o Gorringe é tão especial. “No meio da imensidão do Atlântico, há uma montanha gigante, muito isolada, que vem desde mais de 5000 metros de profundidade quase até à superfície. Isto cria um oásis no meio deste deserto gigante azul, porque imensas espécies precisam de ter contacto com o fundo marinho. Os montes submarinos são como que uma estação de serviço numa auto-estrada gigante, onde se junta uma quantidade de vida enorme”, explica Nuno Sá.