Ativistas libertados da custódia de Israel após serem detidos em uma flotilha que tentava levar ajuda a Gaza afirmaram nesta sexta-feira (22) ter sofrido abusos, segundo organizadores. Vários tripulantes das embarcações foram hospitalizados por ferimentos e ao menos 15 relataram agressões sexuais, incluindo estupro. O serviço prisional de Israel negou as acusações, que a Reuters não conseguiu verificar de forma independente. A Alemanha afirmou que alguns de seus cidadãos ficaram feridos e que parte das acusações é “grave”, sem fornecer mais detalhes. Uma fonte judicial na Itália disse que promotores investigam possíveis crimes, incluindo sequestro e violência sexual. “As alegações apresentadas são falsas e totalmente sem fundamento factual”, afirmou um porta-voz do serviço prisional israelense em comunicado. “Todos os prisioneiros e detidos são mantidos de acordo com a lei, com pleno respeito a seus direitos básicos e sob supervisão de funcionários profissionais e treinados”, acrescentou. “Os cuidados médicos são prestados conforme avaliação profissional e diretrizes do Ministério da Saúde.” Os militares israelenses encaminharam questionamentos ao Ministério das Relações Exteriores, que, por sua vez, remeteu as perguntas ao serviço prisional. Forças israelenses prenderam 430 pessoas a bordo de 50 embarcações em águas internacionais na terça-feira para impedir uma flotilha de voluntários que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. As denúncias de abusos aumentam a pressão sobre Israel para explicar o tratamento dado aos detidos, após a divulgação de um vídeo em que o ministro israelense Itamar Ben-Gvir ridiculariza alguns ativistas dentro de uma prisão ter provocado indignação internacional. A Itália afirmou que membros da União Europeia discutem impor sanções a Ben-Gvir. “Ao menos 15 casos de agressão sexual, incluindo estupro. Pessoas atingidas à queima-roupa com balas de borracha. Dezenas de pessoas com ossos quebrados”, publicaram organizadores da Flotilha Global Sumud no aplicativo Telegram. “Enquanto o mundo observa o sofrimento de nossos participantes, não podemos deixar de enfatizar que isso é apenas um vislumbre da brutalidade que Israel impõe diariamente aos reféns palestinos.” Membros de flotilha de ajuda humanitária à Gaza aparecem ajoelhados e amarrados em vídeo publicado pelo ministro Itamar Ben-Gvir — Foto: Reprodução/X “Despidos, jogados no chão e chutados” Luca Poggi, economista italiano que estava entre os detidos, afirmou à Reuters ao chegar a Roma: “Fomos despidos, jogados no chão, chutados. Muitos de nós receberam choques com tasers, alguns sofreram agressões sexuais e outros foram impedidos de ter acesso a advogados.” Promotores de Roma investigam possíveis crimes de sequestro, tortura e violência sexual e devem ouvir depoimentos de ativistas que retornaram à Itália nos próximos dias, afirmou a fonte judicial italiana. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha afirmou que funcionários consulares que encontraram ativistas alemães na chegada a Istambul relataram que vários apresentavam ferimentos e estavam passando por exames médicos. O tratamento humanitário dos cidadãos alemães é “prioridade absoluta”, afirmou o porta-voz, acrescentando que “naturalmente esperamos uma explicação completa, já que algumas das alegações feitas são graves”. Sabrina Charik, que ajudou a organizar o retorno de 37 cidadãos franceses da flotilha, afirmou à Reuters que cinco participantes franceses foram hospitalizados na Turquia, alguns com costelas quebradas ou vértebras fraturadas. Segundo ela, alguns fizeram acusações detalhadas de violência sexual, incluindo estupro. Em uma publicação no Instagram de um grupo ativista verificada pela Reuters, o francês Adrien Jouen mostrou hematomas nas costas e nos antebraços. Ativistas afirmaram que parte dos abusos ocorreu ainda no mar, após a interceptação pelas forças navais israelenses, e outra parte depois da prisão em Israel. Ativistas de diversos países europeus deveriam retornar para casa em voos vindos da Turquia após serem deportados de Israel na quinta-feira. O chanceler espanhol, José Manuel Albares, afirmou a jornalistas que 44 integrantes espanhóis da flotilha deveriam chegar ao longo desta sexta-feira em voos de Istambul para Madri e Barcelona. Quatro deles receberam tratamento médico pelos ferimentos, acrescentou. Governos ocidentais manifestaram indignação na quinta-feira após Ben-Gvir divulgar um vídeo zombando de ativistas imobilizados no chão de uma prisão. O chanceler italiano, Antonio Tajani, afirmou, à margem de uma reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Suécia, que estava em contato com seus colegas da UE “para que haja uma decisão rápida de impor sanções” contra Ben-Gvir. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, propôs no ano passado impor sanções contra Ben-Gvir e outro ministro israelense, mas a proposta não obteve apoio unânime dos 27 membros da UE. “As sanções da UE são discutidas e adotadas pelos 27 Estados-membros e isso exige unanimidade”, afirmou o porta-voz da política externa europeia, Anouar El Anouni, em entrevista coletiva da Comissão Europeia nesta sexta-feira, acrescentando que não poderia comentar discussões confidenciais sobre sanções.