Ativistas da flotilha de Gaza detidos por Israel e posteriormente imobilizados no chão sob provocações do ministro ultradireitista da Segurança Nacional do país, Itamar Ben-Gvir, foram libertados da prisão e serão deportados para a Turquia nesta quinta-feira (21), informaram autoridades. Os ativistas foram presos em um porto no sul de Israel após a Marinha israelense interceptar a flotilha de protesto em águas internacionais. O tratamento dado aos detidos por policiais sob comando de Ben-Gvir provocou indignação internacional e críticas até do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Ben-Gvir e ao menos outra integrante do governo Netanyahu, a ministra dos Transportes, Miri Regev, publicaram vídeos em estilo de campanha eleitoral visitando o porto e atacando verbalmente os manifestantes — manobras de forte apelo midiático às vésperas de uma possível eleição antecipada em Israel. Os organizadores da flotilha afirmam que o objetivo é romper o bloqueio israelense a Gaza levando ajuda humanitária, ainda considerada insuficiente por organizações humanitárias. A constatação sobre insuficiência de mantimentos básicos ocorre apesar do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos entre Israel e Hamas em vigor desde outubro de 2025, que inclui garantias de ampliação da assistência. A flotilha partiu do sul da Turquia nesta semana antes de ser interceptada na quarta-feira. Outras flotilhas anteriores, incluindo uma que levava a ativista sueca Greta Thunberg, também foram interceptadas por Israel, com os participantes posteriormente deportados. Em comunicado, o grupo israelense de direitos humanos Adalah afirmou que cerca de 430 ativistas foram libertados de uma prisão no sul de Israel e serão deportados pelo aeroporto Ramon, próximo a Eilat, no Mar Vermelho. O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, disse que o país organizou voos especiais para levar cidadãos turcos e participantes estrangeiros de volta à Turquia. Entre os integrantes da flotilha estavam cidadãos da Espanha, Coreia do Sul e Irlanda. “Continuaremos defendendo os direitos de nossos cidadãos e cumprindo nossa responsabilidade humanitária em relação aos civis em Gaza”, afirmou Fidan. O chanceler da Espanha informou que diplomatas espanhóis em Israel foram avisados de que cerca de 44 integrantes espanhóis da flotilha deixariam Israel às 15h no horário local. Provocações em meio à campanha eleitoral Um vídeo divulgado por Ben-Gvir mostra policiais forçando uma ativista ao chão após ela gritar “Palestina livre”. As imagens também mostram dezenas de ativistas ajoelhados em filas com as mãos amarradas para trás por abraçadeiras plásticas, aparentemente em uma instalação portuária israelense ao ar livre. Ao fundo, soldados armados patrulham a área a bordo de uma embarcação militar. Durante os dois anos de ofensiva militar israelense em Gaza, iniciada após os ataques do Hamas em outubro de 2023, tropas israelenses frequentemente alinharam palestinos detidos no chão com as mãos amarradas. “Olhem para eles agora. Vejam como estão agora, não são heróis nem nada disso”, afirma Ben-Gvir no vídeo enquanto passa diante dos ativistas carregando uma grande bandeira israelense. Publicando seu próprio vídeo no porto de Ashdod, a ministra dos Transportes, Miri Regev, integrante do partido Likud de Netanyahu, afirmou: “É isso que deve ser feito com apoiadores do terror que vieram romper o cerco a Gaza.” Netanyahu, que lidera o governo mais à direita da história de Israel, afirmou que a conduta de Ben-Gvir “não está alinhada aos valores e normas de Israel”. Já o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse que o ministro “traiu a dignidade de sua nação”. A base política de Ben-Gvir inclui alguns dos eleitores mais nacionalistas de Israel, grupo que o Likud de Netanyahu tradicionalmente tenta atrair antes das eleições nacionais, cuja próxima votação está prevista para ocorrer até 27 de outubro. Nesta semana, Israel se aproximou de uma eleição antecipada após parlamentares aprovarem uma primeira votação pela dissolução do Parlamento, enquanto pesquisas indicam que Netanyahu perderia a primeira eleição nacional desde os ataques do Hamas em 2023. Indignação internacional A detenção e as provocações contra os ativistas levaram França, Canadá, Espanha, Portugal e Holanda a convocarem os principais representantes diplomáticos israelenses em seus países. Canadá e Espanha estão entre os países que impuseram sanções a Ben-Gvir e ao ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, sob alegações de incitação à violência contra palestinos. O ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, afirmou que, independentemente da opinião sobre a flotilha, “nossos compatriotas que participam dela devem ser tratados com respeito e libertados o mais rapidamente possível”.