Na edição brasileira, o título do romance mais recente do jornalista argelino Kamel Daoud, vencedor do Prêmio Goncourt em 2024, ficou Língua Interior. No original, a obra intitula-se Houris (Húris em português), referindo-se às virgens celestiais de grandes e belos olhos que acompanhariam os justos no Paraíso, segundo o Corão e outros textos islâmicos.
Tanto um título quanto outro oferecem chaves de leitura para o testemunho que estrutura a narrativa. Aube, uma jovem sobrevivente dos massacres da guerra civil argelina (1992–2002), conversa com a filha que carrega no ventre. Não está segura se deve prosseguir com a gestação, já que seu país ainda impõe às mulheres uma realidade opressora, justificada por interpretações enviesadas do Islã.
Talvez seja melhor que a filha não experimente as dores desse mundo. E não apenas por conta das rígidas hierarquias de gênero. Mas, sobretudo, pelo olvido coletivo em nome da reconciliação nacional que passou a vigorar na Argélia depois da chamada Década Negra, na qual se estima terem morrido 200 mil pessoas.
A guerra civil opôs o governo militar, no poder desde o sangrento confronto contra a França que culminou com a independência em 1962, e combatentes da Frente Islâmica de Salvação, partido fundamentalista em ascensão no início dos anos 1990.












