O líder do grupo neonazi 1143 Mário Machado viu negado o pedido para ser transferido da cadeia de alta segurança de Paços de Ferreira e, por isso, vai fazer queixa ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH).Segundo a decisão, a que a Lusa teve hoje acesso, o Tribunal de Execução de Penas (TEP) decidiu negar o pedido de transferência da cadeia de alta segurança de Paços de Ferreira, para onde Mário Machado foi em Janeiro deste ano, sublinhando a sua impulsividade e dificuldade na gestão racional de situações de maior tensão, relembrando todos os processos e condenações de que foi alvo — a primeira condenação foi em 2006, relacionada com crimes praticados em 2001.Para o TEP, a presença de Mário Machado na prisão é um factor de instabilidade, quer pela sua capacidade de influência, uma vez que manipula outros reclusos, quer pelos sentimentos de indignação por parte de presos de outras nacionalidades, etnias e crenças, "incluindo algumas daquelas contra as quais o ora impugnante no passado adoptou comportamentos de discriminação e ódio violento".Na decisão é ainda apontada a Operação Irmandade, feita no início do ano pela Polícia Judiciária e que incluiu buscas na cela de Mário Machado, à data na prisão de Alcoentre.Segundo o TEP, existem fortes suspeitas de que o líder do grupo neonazi manteve contactos a partir da cadeia de Alcoentre com os restantes arguidos desta operação, exercendo funções de coordenação.A natureza dos crimes, "o facto de, antes da actual reclusão, ter sido condenado e cumprido penas de prisão por criminalidade violenta e especialmente violenta", as características da sua personalidade e a tensão gerada pela sua presença foram, para o TEP, motivos para negar a mudança de Mário Machado para uma prisão que não seja de elevada segurança.O advogado José Manuel Castro disse à Lusa que vai recorrer para o TEDH, uma vez que considera que a decisão do Tribunal de Execução de Penas se baseia em condenações anteriores, pelas quais Mário Machado já cumpriu pena e que a cadeia de Paços de Ferreira não tem condições, permitindo um recreio de apenas três horas por dia, por exemplo.Neste momento, Mário Machado encontra-se a cumprir desde Maio do ano passado uma pena de quatro anos de prisão por duas condenações relacionadas com crimes de incitamento ao ódio e à violência.O líder do grupo neonazi 1143 foi transferido em Janeiro deste ano para a cadeia de Paços de Ferreira, depois de a PJ ter feito buscas na sua cela, na prisão de Alcoentre, no âmbito de uma operação que desmantelou o Grupo 1143 e que resultou na detenção de 37 suspeitos. Na altura, a directora da Unidade Nacional Contraterrorismo (UNCT) da Polícia Judiciária (PJ), Patrícia Silveira, referiu que foram apreendidos na cela de Mário Machado "elementos relevantes para a investigação".No despacho de indiciação dos 37 detidos, a que a Lusa teve acesso, o Ministério Público sustenta que, em Novembro passado, Mário Machado, presumível líder do grupo, terá gizado um plano para a realização em 2026 de duas grandes acções com o objectivo de provocar reacções negativas ou violentas por parte da comunidade muçulmana residente em Portugal.A primeira estaria prevista para Fevereiro e passaria pela divulgação junto da Comunicação Social e na rede social X de um vídeo com uma tarja, apreendida na terça-feira pela PJ, a acusar Maomé, figura sagrada do Islão, de ser pedófilo.A segunda consistiria na exibição, numa manifestação em Coimbra no dia 10 de Junho (Dia de Portugal), de uma bandeira com uma imagem do profeta com um turbante e uma bomba.No despacho, são ainda enumeradas cerca de uma dezena de acções destinadas a difundir ideologia de extrema-direita desenvolvidas pelo 1143 desde Fevereiro de 2024 nas redes sociais e na rua contra, sobretudo, imigrantes muçulmanos, incluindo manifestações e uma situação de agressões a dois cidadãos indianos numa área de serviço de Aveiras, na A1, em 5 de Outubro de 2025.