Economia Verde: Minerais serão mais necessários, e Brasil pode ganhar com issoExploração de minerais ‘do futuro’ é oportunidade para Brasil em mundo que busca reduzir emissões. Crédito: EstadãoNo tenso período anterior à Segunda Guerra Mundial, o Brasil enfrentava um dilema com o minério de ferro. Poderia continuar exportando minério bruto e importando aço e máquinas. Em vez disso, Getúlio Vargas negociou apoio e financiamento norte-americano, afastou-se da Alemanha nazista e construiu a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda.PUBLICIDADEVolta Redonda não era apenas uma usina. Foi um projeto de país. Trouxe engenharia, infraestrutura, emprego qualificado e capacidade produtiva. Seu princípio basilar: recursos brasileiros deveriam servir ao desenvolvimento brasileiro.Oitenta anos depois, outro dilema similar se apresenta, e o Brasil está diante de uma daquelas escolhas que separam países que apenas exportam riqueza daqueles que se desenvolvem.Esta escolha ocorrerá agora, quando a inteligência artificial deixa de ser ficção científica. A IA tornou-se infraestrutura essencial para agricultura, saúde, finanças, energia, logística, educação, indústria e defesa. Mas há um equívoco recorrente: imaginar que a IA é feita apenas de códigos e algoritmos. Não é assim. A IA também é feita de minerais, energia, semicondutores, centros de dados e modelos de linguagem.Exploração de lítio da empresa Sigma Lithium, em Minas Gerais Foto: Taba Benedicto/EstadãoE aqui está a oportunidade para protagonismo do Brasil. A base da nova economia digital depende de lítio, níquel, terras raras, cobalto, grafite, silício e nióbio. O Brasil possui reservas relevantes desses minerais, além de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo. A pergunta, portanto, é: o País seguirá o papel de exportador de matéria-prima para que outros capturem o valor industrial, tecnológico e geopolítico? Ou utilizará sua riqueza natural para construir capacidade nacional em inteligência artificial? Os minerais críticos são o minério de ferro da era digital, e a inteligência artificial é a siderurgia do século XXI. O Brasil tem a possibilidade de construir novas Voltas Redondas de computação avançada.PublicidadeObviamente, soberania tecnológica não significa isolamento, como a reserva de mercado para computadores já demonstrou nos anos 1980. Mas países que não controlarem infraestrutura de IA e cadeias críticas ficarão dependentes de plataformas estrangeiras. Na prática, trocarão autonomia por conveniência. Nesse contexto, os esforços para desenvolver modelos de linguagem treinados em português e a partir da riqueza dos dados, da literatura, da produção científica e da diversidade cultural brasileira tornam-se especialmente relevantes.No caso do Brasil, há vantagens excepcionais: mercado interno, universidades, matriz renovável, recursos minerais e relevância geopolítica. Falta transformar esses ativos em estratégia.Neste sentido, o primeiro passo é o processamento dos minerais críticos. Exportar lítio ou terras raras sem refino e sem integração industrial é perder oportunidade histórica. O PL dos Minerais Críticos acerta ao reconhecer a necessidade de incentivos para transferência de tecnologia, investimento local e compromissos industriais.O segundo passo é desenvolver infraestrutura de IA no País. Centros de dados, redes avançadas, energia de alta capacidade e cadeias de semicondutores precisam ser tratados como infraestrutura crítica. A vantagem brasileira em energia renovável pode atrair investimentos globais, desde que haja regulação estável, segurança jurídica e planejamento. O terceiro passo é fortalecer empresas brasileiras de IA. O Estado pode ser comprador estratégico em saúde, educação, agricultura, segurança pública e administração. Bancos de desenvolvimento podem financiar startups, centros de pesquisa e projetos nacionais. Não basta consumir soluções estrangeiras com sotaque tropical. PublicidadeO quarto passo é qualificar. Não existe soberania digital sem engenheiros, programadores, cientistas de dados e pesquisadores capazes de operar essa nova economia. Universidades e empresas precisam de diálogo para impedir que o Brasil forme talentos para exportá-los e depois comprar seus serviços em dólar.Leia tambémThe Economist: Prepare-se para um apocalipse de empregos causado pela IACâmara aprova marco legal para minerais críticos; texto segue para o SenadoCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO quinto passo é tratar dados estratégicos com uma visão de longo prazo. O País produz informações valiosas sobre agricultura, clima, saúde, indústria, território e meio ambiente. Esses dados devem ser geridos de forma criteriosa e estratégica, considerando seu impacto sobre inovação, competitividade, políticas públicas e desenvolvimento sustentável. Em um contexto global cada vez mais orientado por dados, a forma como essas informações são organizadas, compartilhadas e utilizadas merece atenção cuidadosa.O sexto passo é negociar. O Brasil deve cooperar com Estados Unidos, China, União Europeia, Coreia, Japão e outros parceiros. Mas o País precisa entrar nessas negociações conhecendo seus interesses, o que quer preservar e o que deseja construir.A disputa global por inteligência artificial não será vencida apenas por quem tiver os melhores algoritmos. Será vencida por quem controlar energia, minerais, dados, infraestrutura e escala. Nesse tabuleiro, o Brasil tem cartas importantes. Mas o problema histórico brasileiro nunca foi a falta de cartas, e sim o desacerto de mostrá-las após o momento ideal.Por isso, o novo ciclo da inteligência artificial pode transformar o Brasil em fornecedor periférico de insumos ou em plataforma tecnológica. A diferença entre uma coisa e outra será decisão política, não destino geográfico.PublicidadeSe Volta Redonda demonstrou que o Brasil pode usar recursos naturais para construir capacidade industrial, agora o desafio é usar minerais estratégicos e energia limpa para construir poder tecnológico. Este é o novo momento Volta Redonda do Brasil.
Opinião | O novo momento Volta Redonda: IA traz a possibilidade de o Brasil se tornar protagonista global
A base da nova economia digital depende de lítio, níquel, terras raras, cobalto, grafite, silício e nióbio, e o País possui reservas relevantes desses minerais, além de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo













