A disputa judicial entre Roberto Jatahy e Alexandre Birman sobre o comando da Reserva, deflagrada na semana passada, foi o clímax de uma sucessão de fissuras na Azzas 2154 que, já nos primeiros meses de sociedade, ainda em 2024, ameaçavam a união de Arezzo e Grupo Soma. Descrito por fonte próxima à companhia como “um MBA de tudo o que não fazer em uma fusão”, o maior conglomerado de moda da América Latina tem marcas poderosas como Farm, Animale, Schutz e Hering, mas tropeça em estilos de gestão antagônicos e, sobretudo, em personalidades consideradas irreconciliáveis por quem acompanha a empresa. Não à toa, menos de dois anos após o “casamento”, a Azzas vende e lucra menos do que antes, já perdeu mais da metade do seu valor na Bolsa e discute um divórcio que parece inevitável. Procurados pela reportagem, Jatahy, Birman e Azzas 2154 não quiseram comentar. Anunciada em fevereiro de 2024 e concluída seis meses depois, a fusão criou um gigante com R$ 12 bilhões de faturamento e 34 grifes. O plano era usar a escala para capturar bilhões em sinergias e acelerar o apetite por aquisições. De quebra, a união daria musculatura a negócios que vinham sendo cada vez mais desafiados por plataformas como Shein. O primeiro contato entre Birman (herdeiro e CEO da Arezzo) e Jatahy (CEO do Soma) aconteceu em 2021, quando as companhias disputaram a Hering. O Soma levou a marca por R$ 5,1 bilhões, mas o relacionamento se manteve amistoso. Em 2023, segundo fonte a par das conversas, Birman começou a abordar Jatahy com a ideia da fusão. O Soma resistiu, mas cedeu quando, na última semana daquele ano, a promulgação da Lei das Subvenções (14.789/2023) ameaçava comer um pedaço do seu lucro. Isso porque a legislação determinava a tributação de incentivos fiscais, aos quais o Soma estava mais exposto que a Arezzo. Fusão ou aquisição? Segundo um executivo que trabalhou ao lado de Jatahy e Birman, o “namoro muito rápido” é uma das razões dos problemas que se seguiram, já que os dois lados deixaram de observar alertas que surgiriam em processo mais longo. A fusão foi selada seguindo o valor das empresas na Bolsa, com os acionistas da Arezzo ficando com 54% da Azzas e os do Soma com os 46% restantes. Birman ocupou o cargo de CEO, enquanto Jatahy assumiu o segmento de vestuário feminino — essencialmente, as marcas que eram do Soma, com exceção da Hering, que deu origem a uma nova divisão, de vestuário básico. Antes mesmo de o negócio ser concluído, os estilos começaram a se chocar. O primeiro embate se deu na escolha dos executivos do quadro da Azzas 2154. Jatahy defendia avaliação externa dos nomes, mas Birman insistiu que, como CEO, caberia a ele escolher o “C-Level”, segundo fontes. Enquanto quem trabalhava no setor descrevia Birman como “centralizador” e “autoritário” (ou “intenso”), Jatahy parecia mais aberto a delegar. Segundo interlocutores, o grau de assertividade de Birman surpreendeu acionistas do Soma, deixando neles a impressão de que a Arezzo fazia “aquisição maquiada de fusão”. O clima seguiu tenso, a ponto de a Integration Consulting, contratada para o processo, recomendar que as empresas não seguissem em frente com o negócio. O próprio Jatahy — que, segundo fonte, demonstrava personalidade volúvel — chegou a propor a Birman que a fusão não fosse concluída, mas multas contratuais inviabilizaram a desistência. — Alexandre só aceita que as coisas saiam do jeito dele, e Roberto cedeu em uma série de pontos, aceitando condições que deram ao outro posição muito privilegiada. Embora Roberto tenha o comando do vestuário feminino, quem propõe o orçamento da empresa é o CEO — disse executivo que trabalhou com os dois. De fato, o desenho da governança — inclusive a designação do Birman como CEO — foi acordado entre as duas partes. Além disso, a família de Birman tem cerca de o dobro da participação acionária da família de Jatahy na Azzas. Mesmo a contragosto, a fusão foi concluída em agosto de 2024, com chuva de papel picado e foto no púlpito da B3. Mas os problemas seguiam. Poucas semanas depois, Rony Meisler — fundador da Reserva e que já vinha vendendo ações — anunciou que deixaria a empresa. A saída já estava prevista, mas surgiram relatos de que as interferências de Birman na Reserva foram a razão. Meisler teria dito a interlocutores que “nem por todo o dinheiro do mundo continuaria trabalhando com ele”. (Procurado, ele não quis falar sobre sua passagem na Azzas). ‘Mea culpa’ a investidores A debandada já soma ao menos nove executivos — todos com cláusulas de confidencialidade generosas. Foi simbólica a saída de Paulo Kruglensky, ex-CEO da Vivara que era responsável pela integração de culturas organizacionais, pouco depois da fusão. Meisler era responsável pela área de vestuário masculino — sobretudo a Reserva — e foi substituído por Ruy Kameyama, ex-CEO da BR Malls e conselheiro da Azzas trazido pelo Soma. Sua chegada foi lida como sinal de que Birman estava disposto a ceder em alguns pontos a Jatahy, mas a tendência não se confirmou. Em 2025, tornou-se pública a informação de que Birman e Jatahy já cogitavam divórcio. As ações afundaram na Bolsa, e a solução foi “fazer as pazes” publicamente, com direito a mea culpa a investidores — “houve um excesso de protecionismo que ambos foram fazendo”, disse Birman — e mudanças no conselho. Uma proposta do novo presidente do conselho, Nicola Calicchio Neto, pelo menos contribuiu para desanuviar o clima. As marcas baseadas no Rio — o portfólio do Soma e a Reserva — iriam trabalhar na busca por sinergias. Kameyama e Jatahy tocariam o trabalho, chamado internamente de Projeto 021, mas apenas o primeiro teria interlocução com Birman. Números em queda Era, acima de tudo, uma necessidade financeira. A Azzas fatura e lucra menos. No primeiro trimestre deste ano, as receitas brutas foram de R$ 3,1 bilhões, 5,8% menores que um ano antes. Das quatro divisões da empresa, apenas o vestuário feminino — Farm, Animale, Cris Barros etc., todas sob o guarda-chuva de Jatahy — registrou crescimento de vendas (de 4,5% na comparação anual) e representa mais de 40% do faturamento. Na divisão de calçados e acessórios, que inclui marcas como Arezzo, Schutz e Anacapri, a queda foi de 6,9%; no vestuário masculino (Reserva, Oficina e Foxton), o tombo foi de 3,2%; já na Hering, as vendas caíram 18,5%. Quando chegou à Bolsa, em agosto de 2024, a Azzas valia R$ 10,4 bilhões; hoje, a cifra é de quase R$ 4 bilhões. É menos do que valiam a Arezzo (R$ 6,4 bilhões) e o Soma (R$ 5,4 bilhões) na época da fusão. Embora executivo que trabalhou com os dois diga que “o problema é de personalidade, não de diferenças de estratégia intransponíveis”, pessoas próximas aos egressos do Soma criticam Birman por, supostamente, privilegiar faturamento em vez de rentabilidade e crescimento mais sustentado. Segundo um interlocutor, o CEO realizou calls diárias de vendas com as equipes em dezembro, pressionando por descontos agressivos com o objetivo de destravar bônus aos executivos. Só que a estratégia teria praticamente esgotado os estoques da Farm — comandada por Jatahy —, que foi obrigada a fechar todas as suas lojas por dois dias em janeiro. — Ao público, deram a desculpa de que foi porque as lojas venderam demais. Mas a razão foi uma estratégia desastrada — critica uma fonte da Azzas. Gota d’água Neste ano, mesmo com os contatos entre Birman e Jatahy se resumindo a reuniões de conselho, os pavios seguiam curtos. A gota d’água aconteceu em abril, com a saída repentina de Ruy Kameyama. Mais uma vez, a razão teriam sido desentendimentos com Birman. Em pelo menos duas ocasiões, Kameyama e Birman teriam batido de frente. Em uma delas, o CEO fez reuniões sobre um possível spin-off da Farm, como forma de gerar valor para a Azzas, mas não convidou seu subordinado. Além disso, Birman mandou que Kameyama parasse de desenhar uma estrutura societária inspirada na Itaúsa, que criaria uma holding com os negócios das antigas Arezzo e Soma operando de forma independente sob seu guarda-chuva, como forma de reduzir as tensões. Kameyama não gostou e pediu para sair. (Uma fonte próxima ao CEO nega desentendimento; Kameyama não respondeu). Depois da partida de Kameyama, Birman determinou que a Reserva sairia do grupo de marcas “cariocas”. O estatuto da Azzas e o acordo de acionistas — elaborado em acordo com Jatahy — dão a Birman o poder para mexer nas divisões da empresa. Segundo interlocutores, Jatahy entendeu que o movimento “beirava a irracionalidade”, colocava em risco R$ 116 milhões em sinergias e processou o sócio. Segundo relataram advogados de Jatahy à Justiça, o plano previa levar a Reserva a Blumenau (SC), dentro da Hering. Birman recorreu, dizendo que, como CEO, tinha poder para isso. Mas acrescentou que o presidente do conselho, Nicola Calicchio Neto, enviou e-mail em 12 de abril com ata segundo a qual “cinco conselheiros externos” discutiram e concordaram com a decisão. O caso será decidido em arbitragem. Mas a disputa societária caminha para a discussão de cisão. A Azzas contratou o Itaú para assessorá-la. A contratação, antecipada pela coluna Capital, foi confirmada ao mercado ontem. A empresa diz que busca analisar oportunidades e que não há decisão.
Azzas: como as tensões escalaram entre os sócios do maior grupo de moda da AL
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