É quase meia-noite em Havana, mas o tratado de silêncio internacional desta hora de uma segunda-feira é desafiado por uma sequência de boleros, salsas e canções cubanas. O som vem do quintal de uma casa em Vedado, bairro da capital cubana. É um coro alegre, talvez de uma família – que ignora, ao menos por algumas horas, o custo humano altíssimo que os moradores da ilha vêm pagando para se manter de pé.
O bloqueio econômico falha em dobrar o espírito, mas acerta em cheio no cotidiano, tornando o simples ato de existir um exercício de persistência. O embargo é e será, enquanto existir, a principal causa dos problemas cubanos. Mas Cuba é uma sociedade que se reinventa e busca maneiras de sobreviver por uma conexão subterrânea de solidariedade e comércio entre pessoas.
Em relação ao embargo, é perceptível um grande cansaço nas ruas. Envolve a realidade material que seus efeitos provocam, mas também a própria narrativa política da revolução. Durante décadas, para quem observava de fora, as tensões acumuladas pareciam amortecidas por um discurso de resistência e continuidade. O testemunho direto, porém, revela outra camada de impacto.
A pé no Malecón, de bicitáxi em bicitáxi, ou atravessando Havana em relíquias mecânicas anteriores a 1951, dediquei meus dias a ouvir. Dessas trocas e observações, fui montando um panorama sobre o que significa viver e resistir na ilha hoje.






