Leonardo Padura, o mais prolífico, premiado e lido escritor cubano da atualidade, é pessimista quanto ao futuro da ilha. A vida cotidiana é premida, afirma nesta entrevista a Gilberto Maringoni, por dois fatores dramáticos: o aguçamento do cerco dos Estados Unidos e a dificuldade do regime socialista em se renovar. Apesar de expressar ceticismo por meio de diversos personagens e passagens de uma extensa obra, que tem em O Homem Que Amava os Cachorros seu ponto alto, Padura jamais fez coro com a oposição gusana da Flórida. O detetive Mario Conde, quase um alter ego em uma série de romances policiais de sucesso, parece expressar uma espécie de ceticismo ativo de alguém que se decepciona com os rumos da revolução, ao mesmo tempo que nem sequer cogita a possibilidade de deixar o país natal.
Carta Capital: Como o senhor vê a situação da ilha, tanto em relação ao bloqueio dos Estados Unidos quanto à reação da população?
Leonardo Padura: Vejo uma situação extremamente crítica, exaustiva e desesperante. Chegamos ao ponto mais baixo de uma crise que pode, no entanto, atingir profundidades ainda maiores, chegando mesmo a derivar em uma crise humanitária com consequências terríveis. O que se passa é, na minha opinião, a acumulação de medidas e soluções do governo que não conseguiram alcançar economicamente a eficiência de que o país necessita e, por outro lado, a existência indubitável de um bloqueio norte-americano que se intensificou nos últimos meses, levando, de uma forma ou de outra, à situação que se vive hoje. Já se sabe que existem cortes de eletricidade que podem durar dias, falta de água potável, há uma inflação que desvalorizou a moeda e os salários, há falta de medicamentos e outras coisas mais, e o governo não consegue reverter a situação, em parte por não poder (não tem dinheiro para tentar) e em parte porque não se atreve (teme que certas mudanças impliquem a perda de controle das poucas “indústrias” que funcionam bem no país). Enquanto isso, os cubanos sofrem as consequências da ineficiência interna e da pressão externa. O povo é hoje como o recheio de um sanduíche: duas fatias que esmagam o que está dentro.







