A empresa de tecnologia financeira Naskar anunciou ter fechado acordo para vender suas operações para uma “gestora americana” chamada Azara Capital. O negócio, segundo nota à imprensa, inclui a 7Trust e a Next, numa transação avaliada em R$ 1,2 bilhão. O acordo, segundo o texto, prevê que a Azara assuma “integralmente o processo relacionado à base de investidores da empresa Naskar, incluindo as tratativas em andamento, análise individual dos casos e gestão dos compromissos associados à operação”. No seu site, a Azara Capital se apresenta como dedicada “a capacitar investidores imobiliários e empresários com soluções financeiras personalizadas”, oferecendo de serviços bancários simplificados a financiamento imobiliário flexível, fornecendo “ferramentas necessárias para você aumentar e proteger seu patrimônio”. A empresa não aparece como ente regulado pela Securities and Exchange Comission (SEC, a CVM americana) ou pela Financial Industry Regulatory Authority (Finra) nos EUA ou em qualquer outra jurisdição. No site Traxn, que rastreia o registro de pessoas jurídicas, uma companhia de nome similar, a Azara Capital PTE. LTD, aparece com status de extinta. Segundo a assessoria de imprensa da Naskar, o responsável pela Azara é Douglas Azara, que aparece no Linkedin como principal executivo (CEO) do Banco Phoenix, nome fantasia da Jabuti Capital Venture Group, localizada em Barueri, na Grande São Paulo, com capital social de R$ 1,1 bilhão. O Banco Phoenix, segundo informações de seu site, tem presença em Uberlândia (MG) e Miami (FL), “permitindo relacionamento com clientes que possuem interesses financeiros no Brasil e no exterior, conforme as políticas vigentes”. A instituição traz uma nota no seu site segundo a qual teria apresentado, em 2025, uma “proposta oficial para adquirir a totalidade dos ativos considerados inoperantes do Banco Master, incluindo carteiras de crédito, infraestrutura tecnológica e contratos institucionais”. “A operação reforça a estratégia de expansão e preservação de relacionamentos financeiros no mercado”, afirmava o Banco Phoenix. Procurada, assessoria do Master disse que qualquer questionamento deveria ser encaminhado ao Banco Phoenix. Um assessor de Douglas Azara, indicado pela Naskar, disse por mensagem que vai emitir uma nota na semana que vem esclarecendo alguns pontos. Ele forneceu um novo e-mail de contato da companhia, mas não comentou sobre o Master. O Valor tentou contato com a Azara Capital por e-mail, no endereço informado no site, mas a mensagem voltou. Uma tentativa de explicação por telefone caiu numa caixa postal. O Google Maps não reconhece o endereço descrito como sede da empresa, em Miami. O link para abertura de conta não funcionou. A Naskar Gestão tem sido alvo de queixas de clientes que investiram na empresa por meio de contratos de mútuo, fora do ambiente regulado. Vendia a ideia de ter criado um algoritmo que auxiliava a investir os recursos em renda fixa e em opções de ações, prometendo ganhos entre 1,5% e 2% ao mês, muito acima dos parâmetros do mercado financeiro tradicional. Distribuía rendimentos mensais até que neste mês interrompeu os pagamentos. Um possível encerramento da conta corrente por suspeita de lavagem de dinheiro teria causado o problema. Na ocasião, a Naskar disse em nota ter iniciado “um processo interno de auditoria após identificar inconsistências em sua base de dados. As equipes técnicas seguem atuando na revisão e validação das informações, visando garantir segurança e precisão no tratamento dos dados. Os clientes serão atualizados o mais breve possível”. Num contato anterior, afirmou que um vazamento hacker teria causado o transtorno, mas mudou a versão quando questionada se havia informado o episódio à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Uma fonte a par do caso afirmou que empresa tinha 2,7 mil clientes e teria reunido um patrimônio de cerca de R$ 850 milhões. Os sócios são Rogério Vieira, Marcelo Lirano Arantes e Maurício Volpato, ex-jogador de vôlei. A empresa é alvo de investigação em São Paulo e tem um inquérito arquivado em Curitiba. Na semana passada, o grupo Nexco, que distribuía contratos de investimentos da Naskar, representando clientes que aplicaram R$ 288 milhões, ajuizou uma ação contra a fintech. Segundo Adilson Bolico, sócio do escritório Mortari Bolico Advogados, no Tribunal de Justiça de São Paulo há um inquérito policial investigando o Naskar Bank por crime contra a economia popular. O relatório final foi juntado em 11 de maio de 2026. Na prática, isso quer dizer que a investigação foi encerrada pela polícia e agora o procedimento deve seguir para a próxima análise do Ministério Público e, depois, do juiz, se for o caso. Antes disso, o processo passou por várias prorrogações de prazo e diligências, o que mostra que a apuração ficou em andamento por bastante tempo. O processo é sigiloso: somente os investigados e seus procuradores, além da polícia e MP podem acessar detalhes. No Paraná, a defesa da empresa emplacou a tese de que o Naskar Bank operava estritamente sob a égide da Lei 12.865/2013, que disciplina os arranjos e instituições de pagamento no Brasil, e conseguiu dissociar os agentes externos mencionados na denúncia, por inexistência de vínculo atual ou autorização para que atuassem em nome da instituição. “Essa distinção é crucial, pois impede a responsabilização objetiva da empresa por atos isolados de terceiros não autorizados”, afirma a advogada Mariana Battochio Stuart, sócia do escritório Arruda Alvim & Thereza Alvim Advocacia e Consultoria Jurídica. Os contratos de mútuo, na prática, funcionam como um empréstimo que o cliente faz para a empresa com amparo no Código Civil, com previsão de prazos, condições de devolução e remuneração pactuadas entre as partes. Não se trata de uma instituição financeira que atue no ambiente regulado, sob a fiscalização da Comissão de Valores Mobiliários. Consultada, a CVM informou que a Naskar não possui registro para atuar nos mercados regulados. O BC não respondeu num primeiro momento. Em nota, a CVM afirmou que. “por meio de suas áreas técnicas, dentro de sua esfera de competência, acompanha e analisa informações e movimentações no âmbito do mercado de valores mobiliários brasileiro, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário”. A autarquia atua na supervisão e fiscalização de participantes do mercado de capitais, “inclusive em situações que possam envolver eventual oferta irregular de valores mobiliários ou atuação irregular no mercado de capitais”, escreveu. A CVM ressaltou que todo cidadão pode, sempre que considerar necessário, encaminhar denúncias e reclamações à CVM, além de buscar esclarecimentos junto à autarquia, por meio do Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC), e que reclamações e consultas encaminhadas à entidade são devidamente verificadas. — Foto: Gerd Altmann/Pixabay
Naskar vende operações a gestora de CEO do Banco Phoenix, que teria apresentado proposta por ativos do Master
Investigada em São Paulo e em Curitiba é alvo de queixas de clientes que investiram na empresa por meio de contratos de mútuo















