A Green Rock — gestora das famílias de Luis Salomão e Paulo Zoppi, fundadores da rede de medicina diagnóstica que leva seus sobrenomes, e sócios — adquiriu uma fatia minoritária da Crop Labs, laboratório que faz análises microbiológicas para a indústria. O tema está no centro das atenções diante do caso Ypê, que teve lotes de 22 produtos de limpeza proibidos de comercialização, distribuição e produção por risco de contaminação de bactérias. A fabricante Química Amparo recorreu, enviando documentos a fim de comprovar que não há risco sanitário. No entanto, o pedido foi reprovado por unanimidade pelo colegiado da Anvisa, nesta sexta-feira (15), alegando um histórico recorrente de contaminação microbiológica e que as medidas adotadas foram insuficientes. A Anvisa exige a realização de análises microbiológicas por lote produzido (pode variar de 5% a 10% dos itens), para lançamento de produtos e a cada cinco anos os estudos precisam ser refeitos. Na indústria farmacêutica, o rigor é maior, sendo obrigatório vistorias mensais. Mesmo com essa demanda, o mercado desse tipo laboratório ainda é pouco explorado no país, principalmente, por falta de mão de obra especializada. No Brasil, há cerca de 100 laboratórios autorizados pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) para realizar as análises. “Em geral, os laboratórios são especializados em determinados produtos ou tipos de análise. Para alguns casos, como medicamentos, há farmacêuticas que ainda enviam para outros países”, disse Aruã Prudenciatti, fundador da Crop Labs e engenheiro de biotecnologia. A empresa tem ainda como sócio-fundador Lucas Ribeiro, também engenheiro de biotecnologia. A empresa foi criada em 2020, em Botucatu, no interior de São Paulo, cidade onde Prudenciatti atua como pesquisador pela Unesp. A Green Rock entrou na sociedade em dezembro de 2025 e o primeiro aporte foi a construção de um novo laboratório, com 600 m2, inaugurado há cerca de duas semanas. “A Crop trabalha com tecnologia molecular, que é ainda mais específica e não há muitos laboratórios nesse segmento. Nosso fundo procura ativos bem especializados”, disse Matheus Nascimento, sócio da Green Rock, gestora de venture capital com 130 investidores e patrimônio de R$ 130 milhões. No ano passado, a Crop realizou 550 estudos para indústria, sendo metade para farmacêuticas e outra fatia a fabricantes de bens de consumo como alimentos, cosméticos, limpeza, entre outros. Questionado sobre se o caso da Ypê poderia ter sido evitado, tendo em vista o histórico recorrente citado pela Anvisa, Prudenciatti disse que não pode comentar especificamente sobre a Ypê. Mas explicou que, quando há acompanhamento constante, é possível fazer análises de forma rotineira e detectar se a presença das bactérias está evoluindo de forma atípica. Quando isso acontece, já são implementadas medidas para evitar o aumento em patamares considerados de risco. “Com exceção de vacinas, os produtos têm um percentual de bactérias que são inofensivas. Há uma escala para cada produto, não pode deixar chegar no limite. Encontrar a origem da contaminação não é algo simples. Pode estar na água, na matéria-prima, no ambiente da fábrica e até no colaborador. Usamos até um scanner nos dedos do colaborador para ver se tem contaminação”, explicou Prudenciatti. Em relação à indústria realizar análises de produtos de concorrentes, o engenheiro de biotecnologia disse que essa é uma prática comum para checar se a composição é a mesma indicada nos rótulos ou presença de contaminantes. A Unilever fez denúncias à Anvisa e Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), em 2025 e neste ano, informando que produtos da Química Amparo estavam com alta concentração de bactérias, segundo reportagem revelada pela “Folha de S. Paulo”. Em novembro, foi encontrada a bactéria Pseudomonas aeruginosa. “Essa bactéria é oportunista, ataca pessoa com baixa imunidade”, disse Prudenciatti. Segundo a Unilever, testes técnicos em seus produtos e eventualmente nas demais marcas do mercado são realizados rotineiramente. "Esta é uma prática comum entre as indústrias do setor", disse a empresa em nota ao Valor. "A depender dos resultados destes testes, em respeito ao consumidor, as autoridades competentes são notificadas. Quaisquer investigações são conduzidas exclusivamente pela autoridade, que avalia as diligências, fiscalizações e testes que entender necessários para a tomada de decisão." Procurada, a Química Amparo não retornou até o fechamento da reportagem.
Gestora das famílias Salomão e Zoppi compra fatia de laboratório de microbiologia para indústria
Gestora Green Rock adquiriu uma fatia minoritária da Crop Labs; as análises microbiológicas para a indústria estão sob os holofotes com a repercussão do caso Ypê













