Caro presidente Lula, tomo a liberdade de dirigir-lhe estas palavras porque o senhor, com sua trajetória de vida de sofrimento e superação, conhece como ninguém as mazelas que afligem esse nosso Brasil tão desigual.

O senhor é um caso único de filho de mãe solo, de família retirante da fome e da seca, que não apenas conseguiu seu lugar ao sol, mas tornou-se a maior liderança política da história do país, justamente por despertar um sentimento genuíno de identificação na imensa maioria do povo e, dessa forma, passar a confiança de que é possível construir um país mais igual.

É por isso, presidente, que escrevo na esperança de sensibilizá-lo para uma pauta muito cara justamente à parcela mais sofrida desse povo e que mais contribuiu – literalmente com o próprio sangue – para a construção da nação: a população negra, até hoje vítima do legado perverso de séculos de escravidão.

Trata-se de uma Proposta de Emenda à Constituição, a PEC 27, que pode ser um ponto de inflexão em nossa história de mazelas e desigualdades deixadas por uma abolição incompleta.

É pacífico na historiografia que a abolição, na forma como se deu, desacompanhada do acesso à terra, trabalho ou quaisquer tentativas de reparação, relegou o povo negro à pobreza, exclusão social e marginalidade, fatores que definiram o racismo estrutural que existe até hoje no país. Como retratam os versos do famoso samba-enredo, ficamos “livres do açoite da senzala, mas presos na miséria da favela”.