Ilha de Perim fica em um dos pontos mais estreitos da passagem vital para o comércio marítimo, entre o Iêmen e Djibouti 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Combatentes leais aos Houthis reúnem-se durante um ato de recrutamento em Sanaa, em 10 de setembro — Foto: Mohammed Huwais/AFP Os Houthis, grupo rebelde do Iêmen aliado do Irã, tomaram nesta sexta-feira a Ilha de Perim, localizada em um dos pontos mais estreitos da passagem de Bab el-Mandeb, entre o país da Península Arábica e Djibouti, no nordeste da África, em uma expansão da ofensiva iniciada na semana passada que fontes ouvidas pela imprensa internacional afirmam confirmar o controle sobre a rota vital para o comércio marítimo global. — Os barcos em que estavam os combatentes Houthis chegaram à Ilha de Perim, depois que as forças do governo se retiraram ontem [quinta-feira] — disse um funcionário do governo internacionalmente reconhecido do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita, ouvido pela AFP sob condição de anonimato. — Os Houthis concluíram a tomada da região de Bab el-Mandeb e da ilha de Perim, situada no centro do estreito. A tomada da ilha configura um novo desdobramento na rápida ofensiva lançada pelos rebeldes em áreas antes controladas pelo governo iemenita. O grupo já havia conquistado o controle da cidade portuária de Mokha, no oeste do país, e da ilha Zuqar, no Mar Vermelho. Analistas apontam que os Houthis têm por objetivo final firmam posição em todo o litoral iemenita, a fim de controlar a área de maior valor estratégico no país. Outras áreas sob controle do governo parecem perto de cair. Fontes militares disseram à AFP que os Houthis cercaram as forças regulares nas ilhas Hanish, que ficam pouco ao sul de Zuqar — tomada na quinta-feira, em uma operação que foi descrita por testemunhas como um desembarque de forças houthis. As autoridades consultadas afirmam que, provavelmente, os rebeldes ordenaram a rendição dos militares que estavam na área. Com as posições insulares e o domínio dos principais portos iemenitas, os Houthis posicionaram-se de maneira mais incisiva para cumprir a promessa de bloquear Bab el-Mandeb e impedir a passagem de petroleiros sauditas. O grupo já vinha atacando navios vinculados a Riad com o auxílio de drones e outros projéteis, mas o domínio do terreno cria novas alternativas. Alguns especialistas, contudo, questionam se o grupo conseguirá firmar posição após o sucesso da ofensiva. Em uma entrevista à rede catari Al-Jazeera, após a tomada de Mokha na quinta-feira, o o analista Rashid al-Mohanadi, do Center for International Policy Research, afirmou que a "natureza da guerra terrestre no Iêmen" tem como base "formações de alta mobilidade". Muitos dos combates filmados nos últimos dias mostram combatentes se deslocando em veículos em alta velocidade, adaptados com metralhadoras no topo. O analista acrescentou ainda que as 48 ou 72 horas seguintes à tomada seriam importantes para entender o comportamento do grupo rebelde. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) afirma que ao menos 46 mil pessoas foram deslocadas desde a retomada dos combates no sudoeste do país. Disputa entre Irã e EUA O comandante das forças alinhadas ao governo iemenita responsável por Mokha, Tarek Saleh, emitiu uma nota, classificando a ofensiva houthi como "planejada e respaldada pelo Irã". Enquanto parte do "Eixo da Resistência", o grupo está inserido na estratégia mais ampla de Teerã e dos demais aliados, em meio aos conflitos regionais. Embora estejam envolvidos em uma guerra civil que começou em 2014, os Houthis tomaram posição nas disputas regionais desde que Israel repondeu ao atentado de 7 de outubro de 2023, lançado pelo Hamas, com a guerra em Gaza. As perturbações ao comércio internacional provocadas pelas ações do grupo, incluindo contra a navegação civil, provocaram respostas de países ocidentais, e afetaram o tráfego na região do Mar Vermelho. O grupo classificou a ofensiva atual, que já havia sido precedida de ataques aéreos contra petroleiros sauditas, como uma resposta a ataques lançados contra áreas sob controle houthi, que romperam os termos de um cessar-fogo que estava vigente desde 2022. Porém, a promessa de fechar o Estreito de Bab el-Mandeb à navegação saudita escalaria não apenas a pressão econômica a Riad, como também fortaleceria a estratégia iraniana na guerra contra os EUA. Teerã aposta na pressão sobre o mercado internacional de petróleo como forma de desgastar os EUA, forçando Washington a encerrar a campanha militar em troca da reabertura do Estreito de Ormuz, que fica localizado no leste da Península Arábica. Apesar do fechamento de Ormuz ter sido relativamente bem sucedido e elevado o preço do petróleo, o Mar Vermelho funcionou como uma via de exportação para a Arábia Saudita, terceito maior produtor de petróleo do mundo, que redirecionou os envios para o porto de Yanbu, no oeste do país. Um fechamento simultâneo de Ormuz e Bab el-Mandeb, somado a ações ofensivas de Irã e Houthis em outras zonas do Mar Arábico e do Mar Vermelho, respectivamente, poderiam ter um impacto sem precedentes no preço do petróleo mundial — que alcançou o patamar de US$ 105 o barril nesta semana. Mohamad Mojber, assessor do líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, classificou o avanço houthi como uma "vitória contundente" sobre as forças apoiadas pelos sauditas. *Matéria em atualização (Com AFP)