"Querido pai" já circulou por países como Bélgica e Suíça e chega, neste sábado, a São Paulo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O clique 'Querido Pai, parece que ir embora foi necessário para que eu entendesse que precisava voltar' — Foto: Danilo Zocatelli Os domingos eram o pior dia da semana para Danilo Zocatelli, quando criança. Criado em Marialva, cidade do interior do Paraná, ele era levado pelo pai, João, a um campo de futebol, onde precisava lidar com um ambiente fortemente masculino — no sentido mais tradicional e óbvio do termo mesmo. "Jamais consegui me encaixar naquele espaço e entender por que era 'tão legal'", conta o fotógrafo, de 37 anos, que voltou ao mesmo lugar décadas depois para expurgar, de uma vez por todas, os incômodos do passado. Fez isso na companhia do pai que, por sua vez, combinava os shorts e a camisa do Palmeiras com uma volumosa peruca ondulada e maquiagem de drag queen. A cena está registrada na série fotográfica "Querido pai", em cartaz a partir deste sábado na galeria O Jardim, na Mooca, em São Paulo, depois de ser exibida em diferentes países, como França, Inglaterra, Suíça e Bélgica. Fruto da pesquisa de Danilo para o mestrado em fotografia na Royal School of Art, em Londres, a exibição causa comoção por onde passa pela carga dramática e simbólica das imagens. João aparece com a caracterização associada ao universo queer em cenários como o interior de uma igreja e uma plantação, ambientes nem sempre receptivos à população LGBTQIAPN+. Num dos registros, simula uma cena do filme "Priscilla, a Rainha do Deserto" (1994) em cima de um trator. Série 'Querido pai' mostra agricultor com maquiagem e peruca no interior do Paraná 1 de 7 O clique 'Querido Pai, parece que ir embora foi necessário para que eu entendesse que precisava voltar' — Foto: Danilo Zocatelli 2 de 7 "Eu lembro de algumas vezes entrar no vestiário, as camisetas de time penduradas na parede verde" — Foto: Danilo Zocatelli X de 7 Publicidade 7 fotos 3 de 7 'Eu uso cola para bloquear suas sobrancelhas enquanto você tem os braços cruzados sem entender muito o que está acontecendo' — Foto: Danilo Zocatelli 4 de 7 'Querido Pai, Te olhar na sua roupa de sítio com a cara pintada e usando uma peruca enorme foi como todo filho deveria ver seu pai um herói' — Foto: Danilo Zocatelli X de 7 Publicidade 5 de 7 'Querido Pai, Eu só quero, por um dia, poder te mostrar como eu pertenço no mundo, como eu me sinto' — Foto: Danilo Zocatelli 6 de 7 'Querido Pai, não quero te transformar em outra pessoa, porque aprendi a te amar e te entender como você é' — Foto: Danilo Zocatelli X de 7 Publicidade 7 de 7 'Querido Pai, acredito que encontramos nossa paz' — Foto: Danilo Zocatelli Trabalho será exibido em galeria paulistana a partir deste sábado Danilo não sofreu nenhum tipo de opressão explícita pela família enquanto morou com os pais e o irmão mais novo, mas sempre soube ler os sinais ao redor. "Era aquele ambiente onde os homens achavam legal beber até cair, com toda aquela cantoria, sabe?", ilustra, sobre o que o fazia sentir-se inadequado. Ele "saiu do armário" para os pais aos 17 anos sem que houvesse objeções por parte deles, mas também não se falou mais sobre assunto dentro de casa. Aos 22, mudou-se para Londres. Durante o mestrado, o fotógrafo começou a resgatar as memórias dos tempos de infância e juventude e se lembrou da palavra "golo", algo como "viado", muito usada pelos homens da família que, pelas raízes italianas, mantinham o hábito de falar em dialeto. Começou a puxar daí o fio da meada que o levou até a ideia do ensaio fotográfico. "Eu me sentia muito excluído nos rituais familiares e quis juntar os dois mundos, o meu e o deles. Por isso a ideia de usar a maquiagem drag, que vem de um universo que frequento e aprecio", explica. "Quando normalizo a minha 'queeridade' exatamente no lugar onde cresci, me sinto, finalmente, parte dele." O fotógrafo Danilo Zocatelli — Foto: Divulgação Ao caracterizar João dessa forma, Danilo afirma que não propõe uma transformação. "Dei a ele a chance de enxergar o mundo através do meu olhar. Tem mais a ver com se colocar no lugar do outro", conta, sobre a ideia acolhida pelo pai desde a primeira conversa, ainda por telefone. "Contei a ele um pouco sobre a minha vida, e foi uma das conversas mais sinceras que já estabelecemos. Ele apenas disse: 'Eu topo desde que você traga uma peruca bem bonita para mim e outra para a sua mãe'." Conforme o trabalho é exibido em galerias e espaços culturais, o fotógrafo coleciona relatos emocionados de pessoas que se identificam com a proposta por diferentes aspectos. "É um projeto que abre muitos diálogos", diz. "Muita gente não consegue acreditar que é mesmo o meu pai ali. São imagens muito raras, trazem essa coisa do agro e lugares onde, normalmente, não caberia uma drag." Sem perfil em redes sociais, onde as imagens ganham cada vez mais popularidade, João pode até não ter a dimensão exata do alcance do trabalho, mas segue a postos para defendê-lo no mundo real. Embora tenha a admiração de amigos e familiares pelo posicionamento, contou ao filho que já deixou algumas amizades pelo caminho ao ouvir falas homofóbicas. "Ele me disse que fez alguns desafetos nos botecos da cidade por causa de comentários preconceituosos", conta Danilo. João sabe, contudo, que não está sozinho nessa cruzada. "Um amigo dele já me disse que, se tiver uma peruca sobrando, quer ser fotografado também", anima-se Danilo.